| Autores | Mary Zanarini, Anna Vujanovic, Elizabeth Parachini, Jennifer Boulanger, Frances Frankenburg, John Hennen (McLean Hospital, Harvard Medical School) |
| Ano | 2003 |
| Editora | Journal of Personality Disorders, 2003, v. 17, n. 6, p. 568–573 |
| Extensão | 10 perguntas, resposta sim ou não |
| Tempo | 3–5 minutos |
| Tipo | Questionário de autorrelato para rastreamento |
O que é
O MSI-BPD é um questionário curto de autorrelato, montado a partir das perguntas do módulo borderline da entrevista diagnóstica DIPD-IV. São dez itens, cada um respondido com sim ou não, e a pontuação é simplesmente a quantidade de respostas sim. Os oito primeiros itens correspondem um a um aos oito primeiros critérios do transtorno de personalidade borderline no DSM, e o nono critério (desconfiança passageira e dissociação) foi dividido em duas perguntas – daí dez itens para nove critérios.
O grupo de Zanarini não criou o instrumento para substituir a avaliação diagnóstica, e sim para resolver um problema de organização do atendimento. O transtorno de personalidade borderline passa despercebido com frequência na prática comum, e uma entrevista diagnóstica completa leva cerca de uma hora – tempo que ninguém tem para cada paciente. Daí o esquema em duas etapas: primeiro um filtro barato e rápido, depois uma entrevista de verdade com quem passou pelo filtro. Na validação participaram 200 pessoas de 18 a 59 anos que já tinham histórico de tratamento; em 139 delas (69,5%) a entrevista DIPD-IV confirmou o transtorno. O ponto de corte de 7 pontos em 10 deu sensibilidade de 0,81 e especificidade de 0,85, e entre os mais jovens a precisão foi maior: nos 63 participantes de até 25 anos, 0,90 e 0,93.
Depois o questionário se espalhou por outros idiomas, e aí apareceu o detalhe interessante: ele não tem um ponto de corte estável. Numa amostra ambulatorial alemã, o corte 7 deu sensibilidade de 91% com especificidade de 80%; na espanhola, 0,71 e 0,68; na francesa, com adolescentes, o corte ótimo foi 5; na brasileira, 8. A revisão de Zimmerman e Balling, que reuniu os estudos da escala, formulou a razão: quase todos os autores ajustaram o corte para encontrar com mais precisão casos já suspeitos, e não para descartar – e, para um rastreamento de verdade, o corte provavelmente deveria ser mais baixo que sete.
O que o instrumento faz
Organiza a conversa em itens. Depois das dez perguntas, o que fica visível não é “quantos pontos”, mas quais dos nove sinais a pessoa reconhece em si – é um bom lugar para começar a conversa, porque a partir daí se pergunta sobre coisas concretas.
Economiza tempo onde não há tempo. Três minutos em vez de uma hora de entrevista. Foi exatamente para isso que ele foi feito: separar quem não precisa passar por uma conversa longa sobre patologia de personalidade.
Não deixa nenhum critério de fora. Os nove sinais diagnósticos estão cobertos, inclusive aqueles sobre os quais a pessoa normalmente não fala por conta própria – o vazio crônico, a dissociação, a desconfiança.
Tem um ponto de corte publicado, com precisão verificada. Na amostra clínica, 7 pontos ou mais identificaram corretamente 81% dos casos e descartaram corretamente 85% – são números honestos e reproduzíveis, coisa que a maioria dos “testes de borderline” que circulam pela internet nem tem.
Funciona melhor com gente jovem. No estudo original, entre os participantes de até 25 anos a precisão foi bem maior que na amostra inteira. Zanarini chegou a propô-lo como instrumento para a adolescência tardia e o início da vida adulta.
O que ele não faz
Não dá diagnóstico. Diagnóstico se faz em entrevista, onde cada sim rende outras cinco perguntas: quando, com que frequência, como terminou, era assim também aos vinte anos. O questionário não faz essas perguntas, e sem elas um conjunto de marcações não é diagnóstico nem de longe.
Não separa traço de transtorno. A permanência do padrão ao longo do tempo, seu alcance sobre áreas diferentes da vida e a presença de sofrimento real: são três condições que transformam uma característica de personalidade em transtorno. O questionário não verifica nenhuma delas.
Não mede gravidade. A diferença entre 7 e 10 pontos é uma diferença na quantidade de sinais marcados, não na intensidade deles. Alguém com um único sinal devastador pode pontuar menos que alguém com sete sinais moderados.
Não distingue o TPB daquilo que se parece com ele. Depressão, TEPT e trauma complexo, transtorno bipolar, efeitos do uso de substâncias, TDAH – tudo isso produz respostas parecidas. O questionário registra os sinais, não a origem deles; separar uma coisa da outra é trabalho da entrevista.
Não acompanha mudanças. Para observar a evolução dos sintomas borderline ao longo da terapia existe outra escala da própria Zanarini – a ZAN-BPD. O MSI-BPD não foi feito para medidas repetidas.
Não está preso ao agora. As perguntas são formuladas como “alguma vez aconteceu”, ou seja, cobrem a vida inteira. Um período difícil de dez anos atrás produz exatamente os mesmos sins que aquilo que está acontecendo hoje.
Como ler o resultado
A pontuação é a quantidade de respostas sim, de 0 a 10. Não há pesos nem subescalas por dentro.
7 ou mais – resultado positivo no rastreamento, na versão original. Isso significa uma coisa só: faz sentido conversar com um profissional em detalhe. Não é diagnóstico e não é “você tem TPB”.
5 a 6 – zona cinzenta. Não dá para descartar nem para confirmar. É exatamente o caso para o qual a segunda etapa foi inventada.
4 ou menos – o quadro não se parece com transtorno de personalidade borderline. Com uma ressalva: com sensibilidade de 0,81, mais ou menos uma em cada cinco pessoas com TPB real pontua menos que sete, de modo que uma pontuação baixa não anula o sofrimento nem a necessidade de entender o que está acontecendo – só que, provavelmente, a investigação vai ter que ir para outro lado.
O corte de 7 pontos não é universal e nunca foi. No estudo francês com adolescentes o corte ótimo foi 5; no brasileiro, 8; e, com o corte 7, nessa mesma amostra francesa a sensibilidade caía para 0,63. Se o resultado ficou perto da linha, vale lembrar que a linha é justamente o ponto menos confiável da escala.
O sentido prático do resultado é um só: uma pontuação positiva é motivo de conversa, não conclusão. Uma pontuação negativa não é motivo para achar que está tudo bem, se você não está bem.
Limitações
- A limitação principal é a quem o questionário é aplicado. A precisão de 81%/85% foi obtida num lugar onde 69,5% dos participantes tinham transtorno de personalidade borderline: pessoas que já haviam procurado tratamento. Pelos dados agregados da metanálise de 2025, na população geral a prevalência do TPB é de cerca de 2,4%. Aritmética simples com esses três números: num site aberto, de cada cem resultados positivos, uns doze serão verdadeiros. Os outros oitenta e oito são erro, com o questionário funcionando perfeitamente.
- A variação entre os estudos é enorme. Na revisão da escala, a sensibilidade oscila de 48% a 91% conforme o trabalho, a especificidade de 19% a 90%, e os cortes recomendados vão de 5 a 8. Isso não quer dizer que o questionário seja ruim; quer dizer que não existe um número único de precisão para citar, ele depende da amostra.
- Onde o transtorno já é provável, ele não serve para nada. No estudo alemão com pacientes internados, admitidos justamente para tratamento de TPB, a especificidade com o corte 7 caiu para 39% – os autores escreveram com todas as letras que não se deve aplicá-lo numa amostra dessas. O rastreamento responde à pergunta “vale procurar”, não à pergunta “está confirmado”.
- É autorrelato, e ele se move junto com o estado da pessoa. Em crise aguda ou em episódio depressivo se responde sim com mais generosidade do que num período estável; a vergonha e a vontade de parecer bem puxam para o lado oposto. A mesma vida pode render pontuações diferentes em meses diferentes.
- A formulação para a vida inteira infla a pontuação de adultos com passado difícil. “Alguma vez aconteceu” continua sendo respondido com um sim honesto vinte anos depois de aquilo ter deixado de ser verdade.
- Para quem procura um teste desses por conta própria, o corte é especialmente frágil. Numa amostra online brasileira de 1429 pessoas, a média foi 7,43 – ou seja, o resultado médio já estava acima do corte. Ninguém responde um questionário sobre TPB por acaso, e só isso já desloca a distribuição para cima. Para efeito de comparação: numa amostra de estudantes americanos a média foi 4,83, isto é, a zona cinzenta de 5 a 6 está perto do comum para uma pessoa jovem.
- A versão em português não repete os números do original. A adaptação brasileira chegou a um ponto de corte diferente – 8 em vez de 7 –, e a média da amostra online usada nela foi 7,43. A precisão medida em 2003 pertence ao instrumento em inglês, numa outra amostra: aplicar aqueles mesmos 81% e 85% ao texto que você acabou de responder é extrapolação, não dado.
Responder ao questionário MSI-BPD
Aqui normalmente se escreve «procure um especialista». O especialista sou eu, e recomendar a si mesmo é constrangedor. Então proponho um passo menor:
Não é diagnóstico nem consulta: uma conversa curta por vídeo sobre o que o teste mostrou no seu caso. Sem nenhum compromisso: depois da conversa, você decide.
Fontes
- Zanarini M.C., Vujanovic A.A., Parachini E.A., Boulanger J.L., Frankenburg F.R., Hennen J. A screening measure for BPD: the McLean Screening Instrument for Borderline Personality Disorder (MSI-BPD). Journal of Personality Disorders, 2003, 17(6), 568–573. – fonte original do instrumento – https://doi.org/10.1521/pedi.17.6.568.25355
- Zimmerman M., Balling C. Screening for Borderline Personality Disorder With the McLean Screening Instrument: A Review and Critique of the Literature. Journal of Personality Disorders, 2021, 35(2), 288–298. – revisão crítica de todos os estudos da escala e do ponto de corte – https://doi.org/10.1521/pedi_2019_33_451
- Kröger C., Vonau M., Kliem S., Kosfelder J. Screeningverfahren für die Borderline-Persönlichkeitsstörung. Psychotherapie, Psychosomatik, medizinische Psychologie, 2010, 60(9–10), 391–396. – versão alemã, amostra ambulatorial (AUC 0,90) – https://doi.org/10.1055/s-0030-1248279
- Kröger C., Huget F., Roepke S. Diagnostische Wertigkeit des McLean Screening Instrument für die Borderline-Persönlichkeitsstörung. Psychotherapie, Psychosomatik, medizinische Psychologie, 2011, 61(11), 481–486. – queda da especificidade para 39% em amostra de pacientes internados – https://doi.org/10.1055/s-0031-1291275
- Soler J., Domínguez-Clavé E., García-Rizo C. et al. Validation of the Spanish version of the McLean Screening Instrument for Borderline Personality Disorder. Revista de Psiquiatría y Salud Mental, 2016, 9(4), 195–202. – https://doi.org/10.1016/j.rpsm.2016.03.002
- Mirkovic B., Speranza M., Cailhol L. et al. Validation of the French version of the McLean screening instrument for borderline personality disorder (MSI-BPD) in an adolescent sample. BMC Psychiatry, 2020, 20, 222. – ponto de corte ótimo 5 em adolescentes – https://doi.org/10.1186/s12888-020-02643-8
- Dias D.S., Natividade J.C. Brazilian adaptation of the McLean Screening Instrument for Borderline Personality Disorder. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, 2024, 46, e20220486. – versão em português, ponto de corte 8, média de 7,43 na amostra online – https://doi.org/10.47626/2237-6089-2022-0486
- Ramos-Suárez I., Guerrero-Jiménez M., Cervilla J.A., Gutiérrez B. Epidemiology of borderline personality disorder in the general population: Prevalence, sociodemographic factors, and comorbidities – A systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders, 2025, 394(Pt A), 120482. – prevalência agregada do TPB de 2,41% – https://doi.org/10.1016/j.jad.2025.120482
- Reliability, validity, and screening performance of the Chinese version of the McLean Screening Instrument for Borderline Personality Disorder in a psychiatric clinical sample. Frontiers in Psychiatry, 2026. – corte 7: sensibilidade 88,8%, especificidade 71,9% – https://doi.org/10.3389/fpsyt.2026.1865970
Esta página tem caráter informativo. Nenhum questionário serve de base para diagnóstico.

