A investigação da capacidade de autorreflexão e de reconhecimento das próprias necessidades é um dos problemas centrais com que se deparam o psicólogo e seu cliente. Como reconhecer e compreender os próprios desejos? Como entender o que eu quero?
Para mim, como terapeuta de orientação existencial-humanista, essa pergunta sempre sinaliza que a pessoa perdeu o contato com uma capacidade já formada: a de ouvir e compreender os próprios desejos. Afinal, quem chega à terapia não é uma criança pequena que não sabe o que significa comer, beber ou sentir «preciso ir ao banheiro».
É uma pessoa que já sabe, de alguma forma, reconhecer suas necessidades – pelo simples fato de ter chegado até mim. O que significa que ela já reconhecia seus desejos, já vivia, já existia de algum modo.
Investigando o contexto de vida
Para mim, a primeira tática que ajuda a pessoa a desenvolver a reflexão na direção certa é investigar o contexto de sua vida. Parece um fator pouco evidente, mas na prática influencia diretamente a capacidade de se fazer essa pergunta – e a própria existência dela.
O exame do contexto de vida, das relações com o entorno, do passado traumático e das diversas formas de carências que existiram na trajetória da pessoa determina diretamente sua capacidade atual de reflexão no nível mais elevado.
E o exame dessas circunstâncias que levaram a pessoa ao estado de não compreender os próprios desejos, na maioria das vezes, ajuda a entender a natureza traumática e de carência do problema.
Porque ao comportamento do entorno inevitavelmente se segue alguma reação psíquica da pessoa, que de alguma forma pode tanto ampliar a compreensão de seus próprios desejos quanto desqualificá-la.
E o processamento desse trauma, ou a compensação da carência que impedia a pessoa de se conhecer melhor, ajuda automaticamente a compreender também os próprios desejos. Em raros casos o cliente precisa que eu nomeie suas necessidades por ele. Principalmente porque, quando a pessoa está inserida em um ambiente social muito traumatizante, isso pode naturalmente reduzir muitas necessidades superiores, deixando apenas as básicas.
Mas, como dizem os psicólogos humanistas, «a voz da autoatualização é silenciosa, mas insistente demais».
O que se esconde por trás de «eu não sei o que quero»
E então a pessoa chega ao consultório em busca de ajuda para descobrir o que quer. Com frequência, por trás da pergunta «eu não sei o que quero» há:
- Sentimento de culpa («Tenho culpa pelos meus desejos, não se pode desejar isso»)
- Sentimento de vergonha («Sou mau, indesejável»)
- Medo de fracassar («Errar é terrível, não posso cometer erros!»)
- O efeito do desamparo aprendido
- Ou simplesmente uma situação em que a pessoa vivenciou a desvalorização de si mesma («E quem se importa com essa profissão idiota? Vai virar gari se se formar em…»)
A atmosfera terapêutica
Ao entrar na psicoterapia, a pessoa recebe uma atenção enorme direcionada à sua personalidade. E nessa atmosfera de tanta atenção, ela começa a entrar em contato – de forma cada vez mais próxima e profunda – com as necessidades que, de uma forma ou de outra, foram reprimidas. Desse modo, a própria atmosfera terapêutica já ajuda a pessoa a compreender melhor os seus desejos. Mas ainda mais importante é a análise do contexto em que a pessoa vive.
Técnicas para fortalecer a autorreflexão
Também vale recorrer a diversas técnicas e recursos que fortalecem a autorreflexão:
- Manter um diário
- Análise de crenças
- Observação dos sentimentos e sensações no próprio corpo
- Monitoramento das necessidades básicas
- Acompanhamento dos próprios pensamentos ao observar o entorno
Quando a pessoa tem a oportunidade de fazer isso em uma atmosfera segura, a capacidade de reflexão aumenta gradualmente, de forma automática. Mas se a pessoa não está muito envolvida em seu próprio processo e não cuida de criar essa atmosfera para si mesma, o resultado tende a ser pobre.


