Quando um médico invoca as «diretrizes clínicas», ouvimos nisso a voz da ciência sólida. Mas quão sólida ela é?
Uma ampla revisão sistemática de 2026 avaliou a base de evidências das diretrizes psiquiátricas. A conclusão é sóbria: apenas cerca de uma em cada nove recomendações se apoia em evidências de alto nível.
Estamos acostumados a confiar na medicina como uma ciência exata: se existe um «protocolo» e «diretrizes», é porque há estudos rigorosos por trás. Na psiquiatria essa confiança é especialmente importante — trata-se de medicamentos e decisões que afetam seriamente a vida de uma pessoa. Os pesquisadores dinamarqueses Troels Boldt Rømer, Signe Andersson e Michael Eriksen Benros decidiram verificar o que realmente sustenta as recomendações das principais organizações psiquiátricas.
O trabalho foi publicado na revista BMJ Mental Health em 2026 — e seus resultados são úteis não apenas para os médicos, mas também para os pacientes.
O que exatamente foi analisado
Os autores selecionaram 24 diretrizes clínicas de quatro das maiores fontes — a Associação Americana de Psiquiatria (APA), a Associação Europeia de Psiquiatria (EPA), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Federação Mundial das Sociedades de Psiquiatria Biológica (WFSBP) — no período de 2014 a 2024. No total, foram 545 recomendações concretas.
Cada recomendação foi avaliada em duas escalas: pelo nível de evidência (segundo o sistema internacional GRADE — alto, moderado, baixo, muito baixo) e pelo tipo do estudo mais forte em que se apoia (metanálise, ensaio clínico randomizado, estudo observacional, opinião de especialista).
O resultado principal: há poucas evidências de alto nível
Das 545 recomendações, apenas 63 (11,6%) foram avaliadas pelos próprios autores das diretrizes como baseadas em evidências de alto nível. Ou seja, quase nove em cada dez recomendações se apoiam em evidências de nível moderado, baixo ou muito baixo — ou em opinião de especialista.
E o quadro é bastante heterogêneo:
- A farmacoterapia é a mais bem sustentada por evidências — 14,6% das recomendações de alto nível.
- O pior caso é a avaliação somática (exame do corpo): exatamente 0%.
- As fontes também variam muito: na Associação Europeia a proporção de evidências altas é de 20%, enquanto na OMS é de apenas 1,6%.
É revelador também que somente as recomendações sobre medicamentos se apoiavam em metanálises de estudos duplo-cegos com controle adequado — justamente o padrão-ouro da medicina baseada em evidências.
Isso significa que a psiquiatria «não funciona»?
Não. E é muito importante entender isso corretamente. A revisão não é uma condenação da psiquiatria nem um motivo para abandonar o tratamento.
Em primeiro lugar, 44% das recomendações ainda assim citavam metanálises de ensaios randomizados ou pelo menos dois desses estudos. Os médicos se apoiam na ciência — apenas os autores das diretrizes rebaixam honestamente o nível de evidência quando a qualidade desses estudos é insuficiente.
Em segundo lugar, «baixo nível de evidência» não significa «errado» ou «inútil». Significa que sabemos menos do que gostaríamos — e que são necessários estudos de melhor qualidade. É um chamado para fazer ciência melhor, não para abandoná-la.
Onde faltam mais evidências
A revisão também iluminou pontos cegos. Temas inteiros e importantes quase não são cobertos por recomendações com boa base de evidências: autolesão, autismo, TDAH, prevenção, envolvimento do próprio paciente no tratamento e descontinuação de medicamentos.
Um problema à parte é a desatualização. Das 82 diretrizes examinadas, 29 (35%) não eram atualizadas havia uma década inteira. E na psiquiatria muita coisa muda em dez anos.
O que isso muda para o paciente
A principal conclusão prática é simples: as diretrizes clínicas são um mapa, não uma garantia.
O mapa é necessário e útil: resume a melhor experiência disponível. Mas ele não anula o seu caso concreto. Disso decorrem algumas conclusões tranquilas — e não alarmantes:
- Fazer perguntas é normal. «Em que se baseia esta recomendação?», «Quais são as alternativas?» — isso não é desconfiança, é participação.
- A decisão compartilhada não é um luxo, mas a essência do cuidado moderno. Você tem o direito de entender o que exatamente lhe propõem e por quê.
- Uma segunda opinião em decisões sérias é uma prática sensata, não uma ofensa ao médico.
O olhar do psicoterapeuta
A mim, como terapeuta existencial, o que me toca neste estudo não é a crítica à psiquiatria, mas a sua honestidade. Uma ciência madura não tem medo de dizer: «aqui temos certeza, e aqui — ainda não».
A psique é um sistema complexo, e reconhecer a incerteza no trabalho com ela não é fraqueza, mas profissionalismo. Ainda assim tomamos decisões — mas as tomamos junto com a pessoa, atentos à sua experiência única, e não apenas a uma linha numa tabela.
E talvez seja justamente aqui que a medicina baseada em evidências e a abordagem existencial se encontram: ambas ensinam a viver e a agir em condições de conhecimento incompleto — com honestidade, cuidado e em conjunto.
As evidências apontam a direção. Mas quem ajuda é sempre o encontro de uma pessoa concreta com um especialista concreto.
Fonte: Rømer T.B., Andersson S.N., Benros M.E. «Levels of evidence supporting American, European and international guidelines in psychiatry, 2014–2024: a systematic review with quantitative synthesis». BMJ Mental Health, 2026;29(1):e302194. DOI: 10.1136/bmjment-2025-302194.


