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Abandono (dropout) na psicoterapia

Sergio Anufriev
Psicólogo, terapeuta existencial, terapeuta EMDR
📅 Data: 05.02.2026
Leitura: 4 min
📂 Categoria: Prática
🎓 Prática: desde 2002

Por que de um terço à metade dos clientes deixa a terapia antes da hora. Barreiras internas, interpessoais e organizacionais por trás da interrupção precoce.

O abandono (dropout) na psicoterapia é o encerramento precoce da terapia pelo cliente, antes de alcançar os objetivos previstos ou mesmo antes de o trabalho pleno começar. É um fenômeno difundido: segundo diferentes pesquisas, de um terço a mais da metade dos clientes interrompe a terapia antes do tempo. O abandono nem sempre significa fracasso da terapia, mas quase sempre sinaliza a existência de barreiras – internas, interpessoais ou organizacionais.

Principais causas do abandono

1. Descompasso entre expectativa e realidade. O cliente pode esperar mudanças rápidas, conselhos concretos ou «receitas prontas». Se a terapia se revela mais lenta, mais difícil ou mais carregada emocionalmente do que o esperado, a motivação cai e o cliente pode fugir logo no início da psicoterapia.

2. Aliança terapêutica frágil. A qualidade do contato de trabalho é um dos principais preditores de sucesso. A falta de confiança, de sensação de segurança ou de entendimento mútuo faz com que o cliente evite os encontros ou os interrompa de vez.

3. Prontidão insuficiente para mudar. Uma pessoa pode racionalmente querer mudanças e, emocionalmente, não estar pronta para elas. Surge a resistência: faltas, cancelamentos, esvaziamento do processo. Isso é especialmente frequente no trabalho com trauma, com dependências (inclusive emocionais) e com padrões de longa data.

4. Agravamento dos sintomas ou vivências difíceis. Às vezes a terapia provoca um aumento temporário de ansiedade, tristeza ou vergonha. O cliente pode interpretar isso como piora, sem compreender que tais reações fazem parte do processo. Além disso, um ritmo rápido demais da psicoterapia e o desejo do psicólogo de «curar logo» o cliente levam à interrupção precoce por parte do cliente, mesmo quando é ele próprio quem pede mudanças rápidas.

5. Dificuldades formais e organizacionais. Agenda instável, dificuldades financeiras, logística, ausência de privacidade em casa para sessões on-line – quaisquer barreiras práticas podem se tornar mais decisivas que as psicológicas. A terapia na Rússia é um empreendimento bastante custoso; nem todos os psicólogos conseguem fazer terapia pessoal no volume devido.

6. Incompatibilidade metodológica. Se a abordagem do terapeuta não serve ao cliente – estruturada demais, livre demais, pouco envolvida emocionalmente ou excessivamente diretiva – surge no cliente uma sensação de inutilidade ou de desconforto.

7. Divergências culturais e de valores. Visões diferentes sobre as emoções, o papel da família, a intimidade e a autoridade do especialista podem dificultar o contato e reduzir a confiança.

8. Objetivos da terapia não esclarecidos. Quando o rumo do trabalho é difuso, o cliente deixa de ver sentido e perde a sensação de movimento. Um dos fatores mais traiçoeiros: quando o psicólogo não dedica atenção suficiente ao setting e ao contrato, não discute logo no início o que é a terapia e já «se lança a ajudar», o risco de abandono cresce significativamente.

O que ajuda a reduzir o risco de abandono

Discussão transparente das expectativas, retorno regular (sobretudo o negativo), flexibilidade do terapeuta, definição conjunta dos objetivos, correção rápida da estratégia e atenção às emoções difíceis do próprio processo – tudo isso aumenta o envolvimento do cliente e protege a terapia de um encerramento precoce.

O abandono não é apenas uma «saída», mas um sinal diagnóstico importante. Ele mostra onde o contato se rompe, quais necessidades permanecem não reconhecidas e que condições de trabalho vale a pena mudar para que a terapia se torne realmente sustentadora.

O que fazer quando o abandono já aconteceu

Uma questão à parte é como o terapeuta deve se conduzir quando o cliente desaparece. Aqui é fácil errar para os dois lados: tanto deixar a pessoa sem nenhuma resposta quanto passar a persegui-la com mensagens.

Vale se manifestar – uma vez, sem pressão. Uma mensagem curta dizendo que você notou a ausência, que está disponível para conversar sobre o ocorrido e que a porta continua aberta. Sem perguntar «por quê», sem interpretações e sem cobrar a sessão perdida no mesmo texto.

Insistir – não vale. A segunda e a terceira tentativa de alcançar a pessoa já jogam contra: transformam a saída em conflito e fecham a possibilidade de voltar mais tarde. O silêncio como resposta também é uma resposta, e é preciso aceitá-la.

Separadamente, faz sentido examinar o caso por conta própria – em supervisão ou nas anotações: o que aconteceu nos dois ou três últimos encontros, se não houve ali uma ruptura que passou despercebida. Parte dos abandonos começa uma ou duas sessões antes do desaparecimento, e é justamente ali que eles se deixam ver.

Os limites do terapeuta

Ainda assim, não convém atribuir absolutamente tudo ao terapeuta, ao setting ou ao método – acontece também de o abandono na psicoterapia ocorrer pela impossibilidade de superar barreiras culturais e religiosas. Nem todas as barreiras o terapeuta consegue transpor.

É importante lembrar que, embora nos orientemos pelo princípio da qualificação contínua, nós, como psicólogos, não somos todo-poderosos nem onipotentes, sobretudo onde há divergências de convicções.

O tema do abandono segue sendo ativamente discutido no mundo todo; no momento, nos Estados Unidos, há uma série de pesquisas em curso sobre a interrupção precoce da terapia.

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