Sobre o forro narcísico da amplitude profissional: por que a vontade de servir a todos esgota o terapeuta – e o que ela deixa para trás.
Existe uma virtude profissional que quase nunca é questionada: ampliar o alcance. Aprender novos métodos, aceitar novas categorias de clientes, não recusar ninguém. O profissional iniciante escreve no perfil «atendo qualquer demanda» e considera isso uma qualidade. O experiente também – apenas formula de modo mais elegante.
Por fora, isso parece crescimento profissional. Às vezes é exatamente isso. Mas a mesma amplitude pode ter um motor completamente diferente, e de fora não dá para distinguir – nem para os colegas nem, o que é mais importante, para o próprio terapeuta.
Dois motivos que parecem idênticos
O primeiro: amplio minha competência porque vejo nela uma lacuna e quero preenchê-la.
O segundo: amplio meu alcance porque não suporto a ideia de que existam pessoas para quem eu não sirvo. Ou então a convicção: «sou um terapeuta ruim, por isso quero melhorar acumulando clientes variados».
O segundo motivo é narcísico em sua estrutura. Não no sentido corriqueiro de «vaidoso», mas no sentido estrutural: a autoestima se sustenta em confirmação, e cada pessoa a quem não se conseguiu ajudar funciona como refutação. E quando se consegue ajudar, isso é vivido como prêmio pela própria excepcionalidade. Nesse caso, a ampliação deixa de ser sobre os clientes. Ela vira um modo de não encontrar o limite da própria adequação – e para a personalidade narcísica essa é, talvez, a «visita» mais dolorosa de todas.
| Desenvolvimento | Expansão narcísica | |
|---|---|---|
| De onde vem | do interesse pelo objeto | da ansiedade sobre o próprio valor |
| Como escolhe | decide o que estudar | aceita o que aparece |
| Recusar um cliente | decisão de trabalho | derrota pessoal |
| Cliente que foi embora | motivo para refletir | acusação |
| Saciedade | chega | nunca chega |
A última linha é a decisiva. O desenvolvimento tem um ponto em que basta. A expansão alimentada por ansiedade não tem esse ponto por definição: por mais pessoas que você aceite, sempre restarão aquelas que você não aceitou.
Como isso se parece por dentro
Não é diagnóstico, apenas detalhes reconhecíveis:
- na descrição da sua prática não há um único «não» – ou quase nenhum;
- recusar é difícil quase fisicamente – é mais fácil aceitar e sofrer depois;
- com cada cliente você é uma pessoa um pouco diferente: outro ritmo, outro vocabulário, outro grau de suavidade – e alternar entre eles parece um trabalho à parte;
- encaminhar a um colega significa admitir que não deu conta;
- o cliente que foi embora depois do terceiro ou quinto encontro fica na sua cabeça por mais tempo do que deveria.
Nenhum item isolado significa alguma coisa. O que significa é a soma – e, sobretudo, o que você sente quando pensa em recusar.
Por que isso esgota
Aqui é importante nomear o mecanismo com precisão. Costuma-se dizer: o que cansa é a própria diversidade. Não é bem assim – ou melhor, não é o principal. Mudar de enquadre realmente custa atenção, mas atenção se recupera no fim de semana.
O que esgota é outra coisa.
Ao se ajustar a cada um, você permanece o tempo todo em uma forma que não é sua. No momento isso não pesa – ninguém se cansa de uma única sessão. O custo é cumulativo: no fim do dia você não lembra muito bem quem você é. Não é cansaço do trabalho. É cansaço de não estar presente em si mesmo, e ele não passa com sono. Ou o cansaço da alternância constante.
Se a diversidade do público serve para confirmar, a confirmação passa a ser necessária o tempo todo. E a psicoterapia é uma profissão com alta proporção de resultado incerto: parte do trabalho não dá certo, e isso é o pano de fundo normal, não a exceção. Apostar o próprio valor nesse pano de fundo é assinar embaixo de golpes regulares contra os quais não há defesa – e que virão sem falta.
E sem limite não há recuperação: o volume de trabalho passa a ser definido não pela sua capacidade, mas pelo fluxo que chega. Você deixa de ser quem decide quanto de você existe. Você é refém da quantidade, da diversidade e da própria vergonha por não conseguir ajudar a muitos.
E aqui entra um segundo fator, paralelo – a quantidade. Um número grande de clientes, em si, não é fatal: agendas cheias existem há décadas. O perigoso é justamente a combinação – entrada larga somada à impossibilidade de recusar. Um alimenta o outro. Quanto mais largo o funil, mais pessoas; quanto mais pessoas, menos sobra para cada uma; quanto menos sobra, mais é preciso se adaptar para estabelecer contato rápido. O círculo se fecha.
O que vem depois
Os maus frutos não chegam de imediato – e essa é a armadilha principal. Nos primeiros anos esse tipo de trabalho dá muito: prática, gratidão, sensação de ser necessário. A conta é apresentada mais tarde, e não se parece nem um pouco com cansaço físico.
Primeiro vai embora o interesse pelas pessoas. Não «estou cansado», mas «tanto faz o que ele vai contar agora». Isso é profissionalmente letal, porque o interesse é instrumento de trabalho, não estado de humor. Sem ele a técnica continua funcionando, mas a terapia não.
Depois aparece a irritação. Os clientes começam a se dividir em cômodos e incômodos, e os segundos provocam uma raiva surda que dá vergonha de nomear.
Em seguida vem a desvalorização, e ela soa quase sempre igual: «eles não querem mudar». É o mesmo narcisismo do avesso: se não posso ser útil a todos, então os inadequados são eles.
E por fim a presença formal. O terapeuta continua indo às sessões: pontual, educado, tecnicamente correto – e não está ali. Esse estado pode durar anos e, por fora, não é diagnosticável de forma alguma.
No caso grave, vem o abandono da profissão, muitas vezes com a convicção firme de que o problema era a profissão. Quando o problema era o modo como aquela pessoa se instalou nela.
E um detalhe desagradável à parte: quem paga por isso não são só os terapeutas. O cliente que chega a um profissional nessa fase recebe um vazio educado – e em geral não entende o que está acontecendo, porque formalmente está tudo certo: chegam no horário, escutam, dizem as coisas certas.
O que fazer no lugar disso
A resposta não é se estreitar até uma única categoria e escrever «atendo apenas…». Muitas vezes essa é a mesma construção com o sinal trocado: o estreitamento como forma de parecer especialista. Uma especialização declarada não vale mais do que uma universalidade declarada, se ambas foram inventadas para o perfil.
A resposta é compatibilidade.
Compatibilidade e aliança de trabalho não são coisas distintas nem opostas. São a mesma coisa em dois estágios: a compatibilidade é a possibilidade; a aliança é essa possibilidade realizada no trabalho. A aliança não surge do nada, mas também não se constrói a partir do nada – ela se constrói onde há sobre o quê.
Daí decorre algo importante: a aliança é evidência da compatibilidade, não substituta dela. E essa evidência precisa ser lida com honestidade, porque a ausência dela é ambígua. Talvez você realmente não sirva para essa pessoa. Ou talvez você apenas ainda não tenha conseguido – e então «somos incompatíveis» será um nome educado para o próprio fracasso.
O nível de organização da personalidade não deixa de existir, mas também não é critério de seleção:
- onde a capacidade de se relacionar está preservada, a ausência de contato até o terceiro ou quarto encontro é um sinal significativo;
- na organização borderline, um contato leve e caloroso no segundo encontro não garante nada e às vezes até deve alertar: a idealização costuma se converter em desvalorização ou em transferência e contratransferência intensíssimas;
- onde o próprio contato é o objeto do trabalho, a facilidade inicial da interação não pode de modo algum servir de critério – pois o crescimento mais sério acontece exatamente depois de uma dificuldade atravessada em conjunto.
Por isso a pergunta dos primeiros encontros não é «gostamos um do outro». A pergunta é esta:
Eu alcanço o modo como esta pessoa se defende? Ela escuta ao menos parte do que eu digo? E eu a escuto – do jeito certo, e não do jeito que me é confortável?
Isso é verificável, e para isso existe a fase diagnóstica – de dois a quatro encontros, que servem exatamente para que ambos os lados ainda possam se separar sem prejuízo.
E o que isso significa para o cliente
Tudo o que foi dito pode ser lido como cuidado com o conforto do terapeuta: como se por trás de «não atendo todo mundo» pudesse estar a vontade de escolher os mais fáceis e evitar dificuldades. Isso de fato acontece, e a fronteira aqui é a seguinte:
Recusa sem encaminhamento é recusa. Recusa com encaminhamento é trabalho.
O profissional que no terceiro encontro diz: «eu não sirvo para você, e eis por quê; aqui estão duas pessoas a quem vale a pena procurar» – faz por você mais do que aquele que aceitou por educação e ficou ao seu lado formalmente por um ano e meio. E a segunda opção parece mais humana e custa a você um ano de vida, ou mais.
«Eu direi com honestidade se não sou a pessoa certa – e ajudarei você a encontrar quem seja» é mais confiável do que «eu atendo tudo».
Porque a primeira promessa pode ser verificada, e a segunda não.
O retrato que já existe
Todo terapeuta com alguns anos de trabalho tem um retrato da sua clientela. Não o declarado, mas o que se formou. Pessoas de um determinado feitio ficam por muito tempo; pessoas de outro vão embora em um mês. Isso se vê na agenda, não na descrição da prática.
A honestidade profissional começa onde esse retrato é reconhecido. Não escolhido, não construído para o site – reconhecido, porque é um fato consumado.
Reconhecê-lo não significa de modo algum perder qualificação ou admitir inaptidão profissional. Significa parar de gastar energia tentando ser todos ao mesmo tempo e começar a ser alguém determinado. A forma de trabalho, a personalidade, a especificidade, os limites profissionais – por mais tautológico que isso soe – não são limitação. São aquilo sem o que nada se sustenta: nem a prática nem, no fim das contas, quem a exerce. Isso é, talvez, de certo modo o próprio alicerce de uma prática e de uma ajuda de qualidade – alicerce que, no entanto, também não se forma de imediato.





