“Quero me curar rápido”: expectativas, realidade e terapia

Sergio Anufriev
Psicólogo, terapeuta existencial, terapeuta EMDR
📅 Data: 05.02.2026
Leitura: 6 min
📂 Categoria: Terapia existencial
🎓 Prática: desde 2002

Em resumo. Em dois a quatro encontros não se cura, e quem promete isso não está prometendo terapia. O que pode diminuir rápido é o sintoma: depois de uma boa conversa fica mais leve, depois do reprocessamento de uma memória específica a carga dela vai embora. Mas a mudança que se sustenta – quando a pessoa, na mesma situação, age de outro modo – exige meses, porque se formou ao longo de anos. A maioria dos clientes espera menos de dez encontros; a duração real costuma ser maior, e essa diferença é uma das principais razões pelas quais se abandona a terapia. Prazos devem ser combinados no primeiro encontro, não esperados em silêncio.

No início da psicoterapia, muitos clientes chegam com um forte desejo de “consertar” rapidamente seus problemas ou sintomas. Esse anseio parece natural: o desconforto emocional é pesado, e a pessoa quer alívio o quanto antes. No entanto, a realidade psicológica funciona de outra forma: a psique é um sistema complexo, com mecanismos profundos, que não pode ser “consertado” instantaneamente.

Por que surge o desejo de uma cura rápida?

Vários fatores contribuem para essa expectativa:

Contexto cultural e econômico. A sociedade contemporânea exige resultados rápidos, lucro imediato e eficiência. O cliente transfere esses padrões para a terapia – um campo em que as mudanças exigem tempo e participação.

Expectativas irrealistas sobre a duração da terapia. Pesquisas mostram que a maioria dos clientes espera frequentar a terapia por apenas algumas sessões (na maioria das vezes, menos de 10), ao passo que a duração efetiva necessária para mudanças duradouras é, com frequência, muito maior. Essa discrepância aumenta o risco de decepção e de encerramento prematuro da terapia.

Prontidão psicológica para a mudança. A mudança exige esforço, disposição para enfrentar vivências dolorosas, conscientizar-se dos próprios padrões e trabalhar com eles. A eliminação rápida dos sintomas sem uma elaboração interna raramente acontece – e, se o cliente não compreende isso, surge a frustração.

Medo da vulnerabilidade e resistência à mudança. Paradoxalmente, quanto mais profundo o problema, mais forte a possível resistência a discuti-lo: o cliente pode temer a dor emocional que a solução dessa questão exige.

A qual especialista o cliente vai chegar?

O tipo de terapeuta e a abordagem influenciam fortemente a experiência do cliente:

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) – é de curto prazo, estruturada e orientada a sintomas e habilidades específicas. Isso costuma agradar às pessoas que desejam um efeito perceptível logo no início. Contudo, sem uma investigação profunda das causas do sofrimento, as mudanças podem ser superficiais.

Os métodos psicodinâmicos – investigam os mecanismos inconscientes, os traumas do passado e os conflitos internos. Raramente proporcionam um “efeito rápido”, mas são capazes de levar a mudanças profundas.

As abordagens existencial, gestáltica e centrada no cliente – enfatizam o autoconhecimento, o sentido das vivências e as relações no presente. Podem não proporcionar alívio imediato dos sintomas, mas favorecem a integração interna e o crescimento duradouro.

Se o cliente chega a um especialista com outras expectativas sobre a duração da intervenção, aumenta o risco de mal-entendidos e de tensão na relação.

O que acontece em uma “combinação inadequada”?

Quando as expectativas do cliente por um efeito rápido e a concepção do terapeuta sobre um processo prolongado divergem, são possíveis as seguintes consequências:

Abandono (dropout). O cliente interrompe a terapia sem ter visto as mudanças desejadas. Pesquisas associam o abandono prematuro a expectativas irrealistas quanto à duração da terapia.

Frustração e perda de confiança. Se o cliente se orienta constantemente para um efeito rápido e não o obtém, isso pode reduzir a motivação e a confiança no terapeuta.

Intensificação dos sintomas. Na ausência de um bom alinhamento de expectativas, o cliente pode se sentir incompreendido, e a terapia, inútil.

Como o cliente pode lidar com as expectativas sobre os prazos?

Conversa franca sobre objetivos e prazos. No início da terapia, é importante uma discussão clara: o que o cliente espera, o que considera “sucesso” e em quanto tempo. A transparência reduz os riscos de mal-entendidos.

Componente educativo. Quando o terapeuta explica o “modelo da relação dose-efeito” – a relação entre o número de sessões e as mudanças duradouras –, os clientes permanecem mais tempo na terapia.

Alinhamento de pequenas conquistas. Destacar passos pequenos e alcançáveis e avaliar o progresso por etapas cria a sensação de avanço, mesmo que a mudança completa exija tempo.

Ajuste do contrato terapêutico. Alguns terapeutas propõem de antemão um contrato por tempo determinado (por exemplo, de 8 a 10 sessões), com possibilidade de revisão conforme o progresso. Isso ajuda o cliente a sentir controle e reduz o medo do “desconhecido”.

Que fatores influenciam o alcance do efeito?

A aliança de trabalho – o acordo quanto às tarefas e a confiança entre cliente e terapeuta – é a chave para um resultado bem-sucedido. Os clientes cujas expectativas sobre o apoio e o desafio por parte do terapeuta coincidem demonstram melhores mudanças.

As características individuais do cliente – idade, escolaridade, apoio social – também influenciam a adesão à terapia.

As habilidades do terapeuta no manejo das expectativas e no estabelecimento de um plano de terapia realista reduzem substancialmente os riscos de abandono.

Como isso se dá no trabalho comigo

Não prometo prazos no primeiro encontro e não prometo que vai ficar melhor de sessão em sessão. Vai ser diferente: subidas, às vezes inesperadamente altas, e quedas, quando parece que foi tudo em vão. A essência do trabalho é suportar esses trechos difíceis, e não fugir deles para a euforia ou para «remédios mágicos». Nisso se especializam os que garantem resolver o problema em um ou dois encontros: maratonas, métodos autorais, «livramos você dos ataques de pânico em três sessões». Isso não é terapia, é comércio de esperança, e depois dela as pessoas chegam com o mesmo com que saíram, mais a decepção.

E a segunda coisa sobre a qual aviso de saída: o desfecho depende não só do terapeuta e nem só de você. Dependem também os acasos e a vida já formada – trabalho, família, saúde, país. A terapia não é uma pílula mágica. É uma boa ajudante para se orientar num mundo que muda de forma caótica, e não vale contar com mais do que isso – nem é preciso menos.

É possível se curar em poucas sessões

O desejo de “se curar rápido” é um anseio humano normal, mas carrega riscos quando não está alinhado com a natureza real da psicoterapia. Um bom terapeuta ajuda não só a trabalhar nos sintomas, mas também a discutir com clareza os prazos, a formar expectativas realistas e a sustentar a motivação do cliente sem pressão.

Um entendimento mútuo construtivo reduz a probabilidade de ruptura da terapia e aumenta a chance de mudanças duradouras.

Referências científicas para leitura complementar

  • Expectativas do cliente e resultados da terapia – PubMed: Impact of psychotherapist expectations on client outcomes (2015)
  • Influência das expectativas na retenção de clientes – Relationship between Expectation Management and Client Retention in Online CBT (2014)
  • Estratégias educativas para reduzir o abandono – Decreasing treatment dropout by addressing expectations (2011)
  • Abandono e fatores de risco – Client predictors of therapy dropout (2023)
  • Recomendações práticas para lidar com expectativas irrealistas – Practice Recommendations for Reducing Premature Termination in Therapy

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