A resistência é um dos fenômenos mais paradoxais da psicoterapia. A pessoa procura ajuda, paga, gasta seu tempo — e, ao mesmo tempo, faz tudo o que pode para que essa ajuda não funcione. Parece absurdo, mas é exatamente assim que a psique humana funciona: ela nos protege não apenas de ameaças externas, mas também de mudanças internas, mesmo quando essas mudanças são vitalmente necessárias.
A resistência não é inimiga da terapia nem sinal de um cliente “ruim”. É um processo psíquico natural que acompanha qualquer tentativa de mudar padrões consolidados. Sigmund Freud foi o primeiro a descrever esse fenômeno, ao notar que os pacientes “esqueciam” de comparecer às sessões, se atrasavam, mudavam de assunto ou subitamente “se curavam” justamente quando a análise se aproximava de um material doloroso.
Neste artigo, quero examinar a resistência não como um bloco monolítico, mas como um processo dinâmico que atravessa várias etapas distintas — desde as primeiras dúvidas sobre a necessidade da terapia até as complexíssimas relações de transferência do trabalho em profundidade. Mais do que isso, vale observar que a resistência surge nessas etapas com exatamente a mesma probabilidade com que todos nós, um dia, partiremos para o outro mundo, ou seja, com cem por cento de certeza.
Não existem pessoas que jamais tenham passado pela resistência em seu caminho.
Primeira etapa: a resistência antes da terapia
A resistência pode começar muito antes de a pessoa cruzar a porta do consultório do psicólogo. Ela surge no momento em que aparece, pela primeira vez, o pensamento: “Será que eu preciso de ajuda?”
Essa etapa pode durar anos. A pessoa sofre, se atormenta, sua vida desmorona, os relacionamentos ruem, o trabalho não anda — mas algo dentro dela insiste obstinadamente: “Eu dou conta sozinho”, “Isso vai passar”, “Psicólogo é coisa de gente fraca”, “Comigo não está tão ruim assim”, “Vou tomar um drink e já melhora”. Essas são formas clássicas de racionalização, a fuga para o hedonismo — formas diferentes, e não as únicas, de um mecanismo de defesa que permite evitar o confronto com a própria realidade psíquica.
O que está por trás dessa resistência? Alguns medos profundos:
O medo de reconhecer o problema. Procurar um psicólogo significa admitir que algo não está bem. Para muitos, isso equivale a reconhecer a própria “avaria”, insuficiência, fraqueza. Isso é especialmente característico de culturas em que as dificuldades emocionais são estigmatizadas e buscar ajuda é visto como uma derrota.
O medo da mudança. Por mais paradoxal que pareça, as pessoas temem não apenas seus problemas, mas também a solução deles. Porque a solução significa mudança, e a mudança é sempre o desconhecido. Mesmo que a vida atual seja sofrida, ela ao menos é familiar. A terapia, por sua vez, promete uma transformação cujo desfecho é imprevisível.
O medo da vulnerabilidade. A terapia pressupõe abertura, honestidade, expor aquilo que normalmente é escondido até de si mesmo. Para muitos isso é insuportável — mostrar a própria dor, vergonha e medo a uma pessoa estranha.
A vergonha. A terapia é uma situação em que, supostamente, é preciso contar a um desconhecido o quanto eu estou mal? E se ele me julgar e eu receber mais uma dose de trauma? E se ele rir? E se eu me sentir ainda mais insignificante e desprezível do que já me sinto agora?
Nessa etapa, a resistência costuma se manifestar em uma interminável “coleta de informações”: a pessoa lê artigos, assiste a vídeos, estuda avaliações, anda de consultoria gratuita em consultoria gratuita de 15 minutinhos (que aos poucos vão se tornando padrão do processo terapêutico) — mas não consegue de jeito nenhum dar o primeiro passo sério. Ou dá — e cancela a marcação. Ou comparece à primeira consulta — e desaparece. Isso não é preguiça, nem irresponsabilidade, nem leviandade. É um mecanismo natural de funcionamento de qualquer psique humana, que se defende da ameaça de qualquer mudança, com o objetivo de preservar a homeostase, do único modo que ainda lhe é acessível — a evitação.
Segunda etapa: a resistência durante o primeiro contato
Suponhamos que a pessoa, enfim, tenha vindo. Sentou-se na poltrona em frente ao terapeuta ou atendeu a uma chamada por vídeo.
As primeiras sessões são um momento de “tateamento” mútuo. O cliente avalia o terapeuta: dá para confiar nele? Ele me entende? Não vai me julgar? O terapeuta, por sua vez, reúne informações, formula hipóteses, cria um espaço seguro e também, do seu lado, decide se está disposto a trabalhar com aquele cliente. E é justamente nesse momento que a resistência assume uma nova forma.
Testar os limites. O cliente pode se atrasar, remarcar sessões, “esquecer” do pagamento. Nem sempre é uma checagem consciente, mas ela traz uma mensagem importante: “Você me aguenta? Você fica, mesmo se eu for inconveniente?” Pôr o terapeuta à prova, observá-lo com atenção, avaliar “gosto ou não gosto”, “é seguro com ele”, “estou confortável com ele ou me sinto tenso?” — é com isso que começa, principalmente, a avaliação do terapeuta e a travessia da segunda etapa.
A conversa superficial. Alguns clientes chegam com uma longa lista de temas, mas não exploram nenhum em profundidade. Eles contam histórias, mas não mergulham nos sentimentos. Descrevem acontecimentos, mas não a sua relação com eles. É uma forma de estar presente na terapia sem estar verdadeiramente presente. E um dos papéis desse jeito de “fazer terapia” é justamente tatear o terreno: “o quanto isso aqui é interessante, seguro, promissor”.
Outro ponto é a idealização ou a desvalorização. Nas fases iniciais, o cliente pode perceber o terapeuta como um salvador onipotente (“Finalmente alguém vai me entender!”, “Este terapeuta é o mais experiente de todos, portanto espero dele uma agilidade intelectual extraordinária. Vamos lá, me surpreenda!”) ou, ao contrário, como mais um especialista incompetente (“Ele é igual a todos os outros”). Ambas as posições são uma defesa contra o contato real, que exige enxergar o outro como ele de fato é.
A “fuga para a saúde”. Às vezes, após algumas sessões, o cliente subitamente se sente “muito melhor” e decide que a terapia não é mais necessária. É uma forma traiçoeira de resistência: os sintomas recuam temporariamente (muitas vezes simplesmente porque a pessoa finalmente conseguiu se abrir depois de muitos anos), mas as causas profundas permanecem intocadas.
A tarefa do terapeuta nessa etapa não é lutar contra a resistência, mas notá-la, nomeá-la e explorá-la junto com o cliente. É muito útil falar sobre o fato de que esse é um fenômeno completamente normal e, também, de que, para superar a resistência, o terapeuta precisa da ajuda do cliente — isto é, se o cliente veio realmente para se tratar, e não para se divertir. Fritz Perls dizia que a resistência é um “ajustamento criativo” que um dia ajudou a pessoa a sobreviver. Nosso trabalho não é quebrar essa defesa, mas compreender sua função no contexto da experiência individual do cliente.
Terceira etapa: o encontro com a dor (15ª–25ª sessão)
Se o cliente permanece na terapia por algum tempo, e o momento da “aceitação da existência da resistência” transcorre de maneira mais ou menos indolor, então o passo seguinte é quando os temas superficiais se esgotam e começa o verdadeiro trabalho. Em geral, isso acontece em algum ponto entre a 15ª e a 25ª sessão, embora os prazos, claro, sejam individuais.
Essa é a etapa do primeiro contato sério com a própria dor. O que antes era abstrato (“eu tenho uma relação complicada com a minha mãe”) torna-se muito mais concreto e, em vários casos, até experimentado corporalmente. As defesas que, durante anos, mantiveram o material traumático sob controle começam a rachar. E é exatamente aqui que a resistência atinge o seu auge.
Por que justamente agora? Porque a psique sente uma ameaça. A aproximação do material doloroso ativa todos os sistemas de defesa. O cliente pode não ter consciência disso — ele simplesmente sente que a terapia “parou de funcionar”, que o terapeuta “não entende”, que “nada está mudando”.
Manifestações típicas da resistência nessa etapa:
Intelectualização. O cliente começa a analisar seus problemas de modo distanciado, como se estivesse falando de outra pessoa. Ele usa o jargão psicológico, constrói teorias, mas evita o contato emocional com o material. “Sim, eu entendo que isso tem a ver com a minha infância” — diz ele de forma seca, sem nenhum afeto.
Somatização. O corpo assume aquilo que não pode ser expresso em palavras. O cliente começa a adoecer, a sentir um cansaço inexplicável, dores de cabeça, problemas digestivos. As sessões são perdidas “por motivo de doença” — e isso não é simulação, o corpo realmente sofre.
Regressão. Alguns clientes, nessa etapa, começam a se comportar de forma mais infantil: exigem do terapeuta conselhos, instruções, “respostas certas”. É como se dissessem: “Eu não consigo dar conta disso sozinho, faça isso por mim”.
Agressão. Outros, ao contrário, tornam-se críticos, irritadiços, desvalorizadores. Eles atacam o terapeuta, o método, a própria ideia da terapia. Por trás dessa agressão muitas vezes se esconde o medo: “Se eu me permitir sentir essa dor, não vou aguentar”.
Drop-out. A forma mais radical de resistência é o abandono da terapia. É justamente nessa etapa que o risco de encerramento prematuro é máximo. O cliente encontra mil razões: não tem dinheiro, não tem tempo, a terapia não ajuda, encontrou outro especialista, surgiu muito trabalho ou adoeceu. Mas a verdadeira razão é uma só — a aproximação daquilo que é insuportável sentir.
Meu professor favorito, Irvin Yalom, escreveu que o terapeuta deve ser um “companheiro de viagem” do cliente em sua jornada rumo a si mesmo. Nessa etapa, isso é especialmente importante. O cliente precisa de alguém que suporte a sua dor junto com ele, que não se vire de costas, não se assuste, não comece de repente a salvá-lo às pressas. Que simplesmente esteja ao lado e ajude a explorar — de forma firme, paciente, com a fé de que o cliente é capaz de atravessar isso. E como custa caro essa fé!
Quarta etapa: transferência e contratransferência
Se a terapia continua e se aprofunda, surge inevitavelmente o fenômeno da transferência — a projeção sobre o terapeuta de sentimentos, expectativas e padrões de relacionamento do passado do cliente. Isso não é um erro nem uma distorção — é o mais valioso material para o trabalho. Mas é também a mais poderosa fonte de resistência. Pois nem sempre o cliente está pronto para aceitar esse momento. Vale notar ainda que podem surgir duas formas de transferência — a transferência regressiva, quando o terapeuta é visto como uma figura significativa do passado, ou então a transferência fantasística — quando o terapeuta “se torna” aquele que o cliente gostaria de ter tido em sua vida, mas que, por uma série de razões, nunca esteve presente.
A transferência significa que o terapeuta deixa de ser “apenas um especialista”. Ele se torna uma figura sobre a qual se projetam as relações com os pais, parceiros, outros significativos. O cliente pode se apaixonar pelo terapeuta, odiá-lo, ter medo dele, idealizá-lo ou desvalorizá-lo — e tudo isso será um reflexo do seu mundo interno e da sua história de relacionamentos.
Uma das variantes é a transferência erotizada. O cliente sente atração romântica ou sexual pelo terapeuta. Isso pode ser uma forma de evitar um trabalho mais profundo: “Se ficarmos juntos, eu não vou precisar mudar” ou “O amor do terapeuta vai me curar sem nenhum esforço da minha parte”.
A transferência negativa. O cliente passa a perceber o terapeuta como frio, rejeitador, criticador, nocivo, desagradável — mesmo que não haja fundamentos objetivos para isso. Ele transfere para o terapeuta a experiência de relações com figuras feridoras do passado e reage de acordo: se defende, ataca, se fecha, foge, começa a “travar” duramente durante as sessões ou entre elas, chegando na vez seguinte “de cabeça vazia”, quando “não temos nada para conversar”.
A transferência dependente. O terapeuta se torna a única fonte de apoio e compreensão. O cliente não consegue tomar decisões sem a aprovação dele, liga entre as sessões, entra em pânico só de pensar no encerramento da terapia. Isso também é resistência — resistência à própria autonomia e maturidade.
Paralelamente à transferência pode surgir também a contratransferência — as reações emocionais do terapeuta ao cliente. E aqui se esconde mais uma fonte de resistência, só que desta vez do lado do especialista. O terapeuta pode, sem perceber, evitar determinados temas, ser excessivamente brando ou, ao contrário, rígido, “salvar” o cliente em vez de trabalhar com ele.
Trabalhar com a transferência e a contratransferência é a alta acrobacia da psicoterapia. Isso exige do terapeuta um profundo autoconhecimento, supervisão regular e a sua própria elaboração pessoal. Mas é justamente aqui que acontecem as mudanças mais profundas. Quando o cliente consegue ver como o seu passado influencia o presente, como ele reproduz os mesmos padrões repetidas vezes — abre-se a possibilidade de uma verdadeira transformação.
A resistência como aliada
Ao encerrar este artigo, quero ressaltar o mais importante: a resistência não é inimiga. É a parte da psique humana que tenta proteger a pessoa e que sinaliza que ali, lá no fundo, esconde-se algo extremamente importante, e que corremos o risco de tocar nesse trecho doloroso da psique. Sim, às vezes essa defesa ficou ultrapassada e prejudica mais do que ajuda. Mas ela não surgiu por acaso — um dia, foi necessária para a sobrevivência. Afinal, quase todos nós crescemos em uma sociedade onde não há psicoterapia, não há habilidades para lidar com emoções e sentimentos, e as relações interpessoais são, na maioria das vezes, dolorosas e destrutivas.
A tarefa da terapia não é quebrar a resistência, mas transformá-la, ajudar a pessoa a ver como ela se defende, compreender de que se defende e encontrar maneiras mais flexíveis de lidar com a ansiedade e a dor. É um caminho longo, que exige paciência, coragem e confiança — de ambos os lados.
Cada etapa da resistência é um convite a um autoconhecimento mais profundo. Das primeiras dúvidas — “será que eu preciso de terapia?” — até as complexíssimas relações de transferência, tudo isso são degraus de uma mesma escada, que conduz a uma vida mais autêntica, consciente e livre.
E se você se reconheceu em alguma dessas descrições — isso não é motivo para vergonha. É motivo para curiosidade: o que exatamente eu estou protegendo? De quê? E estou disposto, ao menos um pouquinho, a afrouxar essa defesa e olhar o que há por trás dela?




