Por que precisamos de outra pessoa?
A proximidade é mais do que corpo e mente.
Todos nós queremos proximidade. Este é um dos desejos humanos mais profundos — e um dos mais assustadores. A verdadeira proximidade é sempre um risco. O risco de ser visto. O risco de ser rejeitado. O risco de perder aquele a quem você deixou se aproximar.
Neste artigo vamos falar sobre a proximidade — inclusive a sexual — sob a perspectiva da psicoterapia existencial-humanista. Trata-se de uma abordagem da psicologia que olha para o ser humano não através da ótica de diagnósticos e sintomas, mas através da ótica dos sentidos: por que vivemos, do que temos medo, pelo que ansiamos e o que torna a nossa vida verdadeiramente plena.
Por que precisamos tanto de outra pessoa
A psicologia existencial fala de algumas «condições dadas» — condições fundamentais da nossa existência, com as quais cada um de nós se depara simplesmente por ter nascido humano. Uma delas é o isolamento existencial. Não é a solidão no sentido cotidiano — não é a ausência de pessoas ao redor. É uma sensação mais profunda: em última análise, cada um de nós vive a sua vida por dentro, a partir da sua própria experiência única, e ninguém — nem mesmo a pessoa mais próxima — pode compreender por completo o que é ser exatamente eu. E, nesse sentido, a proximidade vai desgastando essa sensação básica, que, no entanto, retorna com o tempo.
A proximidade é a nossa resposta a esse isolamento. Não a sua eliminação completa, porque eliminá-lo por inteiro é impossível. Mas uma ponte. Cada vez que outra pessoa realmente nos vê, nos ouve, nos aceita — o abismo entre o «eu» e o «outro» se estreita por um instante. E nisso há um valor imenso. Isso dá muito sentido à vida e a preenche.
Que tipos de proximidade existem
Quando ouvimos a palavra «proximidade», muitas vezes pensamos em sexo. Mas a proximidade sexual é apenas uma das formas de tocar outra pessoa. E nem sempre a mais profunda. Ainda assim, é acessível, primitiva e bastante compreensível. Ela traz a sensação de que «sou desejado» (satisfaz a necessidade de pertencimento), «sou notado» (a necessidade de ser visto), e você sente, experimenta sensações intensas (o que significa que está vivendo, e não apenas atravessando a vida). Mas vejamos quais outros tipos de proximidade existem e o que cada um deles nos oferece.
Proximidade emocional
É quando você consegue contar a outra pessoa o que sente, sem medo de ser julgado. Quando você compartilha não só as alegrias, mas também a vergonha, os medos, as dúvidas — e recebe em troca não um julgamento, mas acolhimento. É justamente aqui que verdadeiramente superamos o isolamento: não pela fusão dos corpos, mas pelo encontro de dois mundos interiores. Quando outra pessoa nota você e nasce em você uma sensação de segurança. Não uma compreensão, mas quase que num nível corporal a sensação de «que você está seguro». Afinal, as emoções são todas vividas através do corpo; não existem emoções fora do corpo.
Proximidade corporal
Isso não é necessariamente sexo. É o toque, o abraço, a sensação do calor de outra pessoa ao lado. O nosso corpo é a única «casa» que temos ao longo de toda a vida. Quando outra pessoa nos toca com cuidado, isso é uma mensagem na língua mais antiga de todas: «Você é real. Você está aqui. Você não está só».
Proximidade sexual
Uma experiência poderosa e única. No sexo estamos no máximo da nossa vulnerabilidade — tanto física quanto emocionalmente. É justamente por isso que o sexo pode ser tanto uma fonte da mais profunda união quanto uma fonte de profunda dor. Quando na proximidade sexual existe confiança e presença autêntica — trata-se de uma vivência que vai muito além do prazer físico. Ela oferece a sensação de aceitação de si por inteiro — incluindo o corpo, os desejos, a vulnerabilidade.
Proximidade intelectual
É quando vocês conseguem pensar juntos, debater, explorar o mundo. Quando as ideias de vocês se encontram e se enriquecem mutuamente. Esse tipo de proximidade muitas vezes é subestimado, mas é ele que cria a sensação de que você não está sozinho na sua busca por sentido — e essa é uma das questões mais importantes da existência humana.
Proximidade existencial
Talvez o tipo mais profundo. É quando duas pessoas conseguem estar juntas diante das questões mais difíceis da vida: a morte, a incerteza, a falta de sentido. Quando você não precisa fingir que está tudo bem e não precisa «resolver» um ao outro. Simplesmente estar ao lado, sabendo que a vida é finita, frágil e imprevisível — e, ainda assim, escolhendo estar junto.
O sexo e as condições dadas da existência
A proximidade sexual é um espaço extraordinário no qual se cruzam, ao mesmo tempo, vários temas profundos da nossa existência. É justamente por isso que o sexo nunca é «apenas sexo». O sexo sempre cumpre muitos papéis na vida de uma pessoa, e a obtenção de prazer corporal e a reprodução estão longe de ser os únicos.
Liberdade e responsabilidade. Na proximidade somos livres para escolher — abrir-nos ou fechar-nos, confiar ou nos proteger. A verdadeira proximidade sexual é impossível sem essa escolha livre. Quando ambos os parceiros escolhem um ao outro não por hábito, não por sentimento de dever, não por medo da solidão, mas a partir de um desejo autêntico de estar juntos — isso preenche o encontro com uma qualidade completamente diferente. É aqui que nasce aquilo que os existencialistas chamam de autenticidade.
A finitude. A consciência de que a vida não é eterna torna cada instante de proximidade mais valioso. Quando sentimos de verdade que o tempo é limitado, somos capazes de estar mais presentes — no corpo, no contato, no «aqui e agora». Paradoxalmente, é justamente a aceitação da finitude que pode tornar a proximidade física mais viva e intensa do que quaisquer tentativas de fugir do pensamento sobre a morte.
Isolamento e conexão. O sexo é uma das tentativas mais poderosas de transpor o abismo entre as pessoas. Em momentos de profunda proximidade física, a fronteira entre o «eu» e o «você» se dissolve por um tempo. Mas é importante lembrar: depois disso, cada um de nós volta à sua própria solidão. E isso é normal. A proximidade não é um remédio contra o isolamento, mas uma forma de torná-lo suportável e significativo.
Sentido. Quando o sexo se torna parte de um relacionamento dotado de sentido, ele deixa de ser um simples ato físico e se transforma numa forma de expressar amor, gratidão, ternura. Torna-se uma forma de diálogo — não verbal, mas corporal. Esse tipo de sexo não precisa de «técnica» — precisa de presença.
Quando a proximidade fere
A proximidade se torna destrutiva quando, em vez do encontro de duas pessoas, ocorre a utilização de uma pela outra. Quando o sexo se torna um meio de silenciar a angústia, de preencher o vazio interior, de provar a própria «normalidade» ou de prender o parceiro. Quando o corpo está presente, mas a alma não. Disso ambos saem prejudicados: um sente que o outro não o nota por inteiro, e quem usa o parceiro — também é incapaz de obter aquilo de que realmente precisa, pois não é totalmente honesto consigo mesmo.
Acontece também de a pessoa evitar a proximidade — não porque não precise dela, mas porque é assustador demais. O medo da vulnerabilidade, o medo da rejeição, experiências traumáticas do passado — tudo isso pode transformar o desejo de proximidade em fonte de angústia. E então a pessoa ergue muros: mergulha no trabalho, em relações superficiais, no controle, em jogos intelectuais, substitui a necessidade de proximidade por outra coisa.
A psicoterapia existencial não avalia nem julga. Ela ajuda a pessoa a olhar honestamente para a sua própria experiência e a fazer a si mesma algumas perguntas: «O que eu realmente busco na proximidade? Do que eu fujo? Estou verdadeiramente presente — ou me escondo por trás de roteiros habituais?»
A proximidade como coragem
A verdadeira proximidade exige coragem. A coragem de ser vulnerável. A coragem de se mostrar como você é — sem máscara, sem papel, sem uma imagem perfeita. Isso vale para as emoções, para o corpo e para o sexo.
Irvin Yalom, um dos principais representantes da psicoterapia existencial, escreveu que o maior presente que podemos dar a outra pessoa é a nossa presença autêntica. Não conselhos, não soluções, não palavras «certas». Simplesmente estar ao lado — de verdade, por inteiro, sem desviar o olhar daquilo que é assustador ou doloroso.
E quando esse encontro acontece — seja numa conversa, num abraço, no sexo ou num silêncio compartilhado — tocamos por um instante algo pelo qual, talvez, valha a pena viver. A sensação de que não estamos sós. De que somos vistos. De que nós — existimos.




