Costuma-se pensar nas pessoas esquizoides de dois modos, e os dois estão errados. O primeiro: um sujeito seco e frio, que não precisa de ninguém. O segundo: um gênio silencioso, de mundo interno riquíssimo, com quem está tudo bem. Na prática, o que há ali costuma ser alguém com sentimentos demais – tantos que aprendeu, faz muito tempo, a mantê-los longe das mãos alheias. E a pergunta não é se essa pessoa tem necessidade de proximidade, e sim a que preço a proximidade lhe sai.
Como isso é por dentro e por fora
Alguns exemplos, no formato que já virou habitual nos meus textos.
Sexta-feira, os colegas chamam para o bar. Ele recusa – e não é aquela recusa dilacerada e contraditória de quem é evitativo: ele realmente não quer ir. Em casa há coisas mais interessantes: abre um livro, e a noite sai genuinamente boa. Na segunda-feira alguém comenta: «Você está sempre sozinho», – e por dentro sobe uma irritação surda: por que a solidão precisa ser explicada a alguém?
O relacionamento já dura quatro anos. Ela diz: «Eu não te conheço de verdade». Ele sinceramente não entende a queixa – está presente, não trai, faz tudo o que lhe pedem. Só que, para a pergunta «no que você está pensando?», não existe resposta honesta: aquilo em que ele pensa não se traduz em palavras que não a decepcionem e que não lhe tirem isso.
Depois de três dias seguidos entre pessoas – uma viagem de trabalho, visitas, conversas de praxe –, o que vem não é cansaço, é outra coisa: a sensação de que restou menos de você. A recuperação não leva uma noite, leva um dia inteiro de silêncio absoluto. Explicar isso a quem mora com ele é impossível, então ele diz que pegou alguma coisa, que está cansado, que não se sente bem.
Há vinte anos ele constrói mentalmente a mesma cidade: ruas, prédios, histórias das pessoas que moram lá. Ninguém sabe disso. É uma cidade peculiar, utópica e interessante à sua maneira, mas não é brincadeira nem hobby – é o lugar, dentro da imaginação, onde ele de fato passa a vida. Uma vez tentou contar – o interlocutor sorriu e mudou de assunto. Não houve segunda tentativa.
Nenhuma dessas cenas é sobre doença. Casos isolados, por si sós, ainda não dizem nada – podem acontecer com quase qualquer pessoa, uma ou outra vez. Fala-se em transtorno quando essas cenas se acumulam a ponto de não sobrar nada do lado de fora – só uma máscara fria e um rosto pouco expressivo.
O que isso é de verdade
Os manuais diagnósticos descrevem o transtorno da personalidade esquizoide por ausências: não busca relações próximas, prefere atividades solitárias, não tem amigos íntimos, parece indiferente a elogios e críticas, é emocionalmente frio e distante. Formalmente correto e completamente inútil para compreender, porque descreve apenas o que se observa de fora.
Por dentro é outra coisa. A tradição psicanalítica – e talvez essa seja sua principal contribuição ao tema – encontrou exatamente o oposto[3]: por trás do distanciamento esquizoide quase nunca há vazio, e sim pensamentos e sentimentos em excesso, e bastante intensos. Necessidade forte demais, sensibilidade aguda demais, mundo interno grande demais. A distância aqui não é ausência de fome, é um modo de lidar com ela. Quando há demais de alguma coisa, é melhor não mostrar essa coisa. E não mostrar custa caro.
Ronald Fairbairn, que foi o primeiro a descrever isso, formulava o dilema esquizoide assim: meu amor é perigoso. Não «vão me rejeitar», mas «se eu chegar perto e pegar o que preciso, vou destruir ou devorar aquilo». Daí um paradoxo que de fora não se vê: a pessoa se mantém afastada não porque os outros lhe sejam indiferentes, mas porque são importantes demais. Os sentimentos são fortes demais – e igualmente forte é a recusa dos próprios sentimentos e necessidades, porque a pessoa não consegue expressá-los; por fora, no entanto, parece que ela convive muito bem com eles.
Harry Guntrip, aluno de Fairbairn, acrescentou a outra metade: a mesma distância protege também do inverso – da dissolução. Ser visto e acolhido significa ser tomado como posse e, portanto, deixar de pertencer a si mesmo. Por isso a proximidade é vivida como uma escolha em que não há ganho: se chegar perto, você some; se recuar, você congela.
Os porcos-espinhos se apertavam uns contra os outros no frio, mas se espetavam com os espinhos. Ao se afastarem, voltavam a sentir frio – e assim foi, até acharem a distância em que dá para suportar as duas coisas.
parábola de Arthur Schopenhauer, «Parerga e Paralipomena», 1851
A organização esquizoide é a distância encontrada uma vez, aquela em que já não se espeta. O problema é que nela também não se aquece.
A casa cujos construtores esqueceram a porta
É a imagem que eu proporia no lugar da habitual «fortaleza». Fortaleza se constrói contra um inimigo; aqui as paredes cresceram em volta do que é valioso – em volta justamente daquele mundo interno que um dia foi mostrado e não encontrou compreensão. Ou que nunca encontrou, desde o começo: a esquizoidia costuma ser associada à secura emocional e à fome afetiva dos pais já nos primeiros anos de vida[5]. As paredes ficaram boas: dentro é quente, há o que fazer, ninguém atrapalha.
Já a porta… a coitada simplesmente não foi prevista. Não foi trancada nem tapada com tijolos – ela não constava no projeto, porque quem construiu a casa foi uma criança convencida de que lá fora não havia nada de que precisar. Trinta anos depois, descobre-se que alguma coisa necessária existe, sim, lá fora – só que não há vão nenhum, e derrubar a parede dá medo: é ela que sustenta tudo.
É exatamente por isso que a pessoa esquizoide raramente chega com a queixa «estou sozinho». Ela chega com outra coisa: a casa ficou silenciosa demais.
Em que isso se diferencia do transtorno evitativo
Essa distinção é a mais importante de todas, porque de fora os dois quadros parecem iguais: a pessoa fala com pouca gente e se mantém à parte. A diferença está no que acontece por dentro, e ela decide tudo – inclusive o modo de conduzir a terapia.
No transtorno da personalidade evitativa a pessoa quer proximidade e não vai atrás dela por medo da rejeição. A solidão é dolorosa, não foi escolhida por gosto. Atrás da parede de vidro ela está mal, e sabe disso.
No transtorno esquizoide, a pessoa está de fato razoavelmente bem sozinha. Ela não precisa de confirmação constante de que será aceita – precisa que não cheguem perto demais. O medo aqui não é de rejeição, é de devorar a outra pessoa ou de ser devorada por ela.
A consequência prática disso é que o que ajuda no transtorno evitativo pode prejudicar no esquizoide. Retomada gradual do contato, tarefas de casa do tipo «converse com um colega», um terapeuta caloroso e ativo – tudo isso, para o evitativo, é tratamento; para o esquizoide, é invasão, depois da qual ele educadamente para de aparecer.
Vale dizer à parte que essas coisas se combinam com mais frequência do que se costuma pensar[5]: a mesma pessoa pode ter organização esquizoide e um medo marcante de avaliação. Aí é preciso trabalhar as duas camadas, e na ordem certa – primeiro o respeito pela distância, depois todo o resto.
Traço ou transtorno: três perguntas da entrevista clínica
O padrão-ouro do diagnóstico é a entrevista clínica, e as perguntas abaixo vêm justamente de lá. A esquizoidia, por si só, não é um diagnóstico: é um modo de organização do psiquismo, e ele pode ser perfeitamente saudável. Um número enorme de pessoas é introvertida, valoriza a solidão e vive muito bem. Para distinguir, serve a mesma verificação usada nos outros textos da série sobre transtornos de personalidade.
1. Estabilidade. Esse é o seu jeito de viver desde a juventude e em quaisquer circunstâncias? Ou o distanciamento apareceu depois de eventos concretos – uma perda, um divórcio, um esgotamento – e dura há um ou dois anos?
2. Totalidade. A distância está em tudo – trabalho, amizade, família, corpo –, ou existem áreas em que você é vivo e presente: com uma pessoa, no seu ofício, com animais?
3. Preço. O que exatamente você perde? Não «poucos amigos» pela régua de outra pessoa, e sim pela sua própria: existe algo que lhe falta e que você deixou até de tentar? Quanto é confortável, no todo, viver com essas características? Há de fato algo errado com a sua vida? Responda com honestidade.
A chave aqui é a terceira pergunta, e ela é mais branda do que nos outros textos da série. A pessoa com organização esquizoide não precisa provar que a solidão é um problema. Se a solidão lhe serve e a vida está preenchida, isso não é transtorno, é uma característica, e não há o que «tratar». Se, em princípio, a pessoa está bem sozinha, então não há por que gastar tempo e dinheiro com terapia. A conversa séria começa exatamente onde você mesmo percebe uma falta e esbarra numa parede que há muito não tem porta. Ou seja, quando a sua própria autocrítica diz: «Escuta, parece que tem alguma coisa errada aqui».
De onde isso vem
Como nos demais casos da visão geral dos transtornos de personalidade, não existe causa simples. A causa se compõe de uma série de circunstâncias.
Temperamento. Há crianças cujo limiar de sensibilidade é baixo desde o nascimento: barulho, toque, emoções alheias são vividos de forma mais aguda do que pelas outras. Para uma criança assim, a vida familiar comum pode ter volume excessivo, e se recolher não é um defeito, é uma regulagem razoável.
Ambiente precoce. A variante clássica não é a crueldade, é a invasão: um pai ou uma mãe que não distingue onde ele termina e onde a criança começa. Lê o diário, entra sem bater, decide pela criança o que a criança sente e ainda a usa como ouvinte dos próprios problemas, quase como psicólogo. A criança é amada – e ao mesmo tempo não tem um milímetro de espaço próprio, nem um mundo próprio em que se sinta minimamente dona. A segunda variante é oposta: adultos emocionalmente ausentes, ao lado dos quais é mais fácil parar de esperar proximidade do que esperar por alguma manifestação de calor.
A conclusão a que a criança chega. No primeiro caso: «proximidade é quando me tomam, preciso defender a minha fronteira». A proximidade passa a ser sentida como um perigo difuso. No segundo: «pedir não adianta, me viro sozinho». As duas conclusões são razoáveis para aquelas condições, e as duas continuam funcionando trinta anos depois, embora as condições e as circunstâncias de vida sejam, há muito, outras.
Donald Winnicott descreveu esse mecanismo melhor do que ninguém: se não for seguro se mostrar como se é, o psiquismo constrói uma fachada conveniente para uso externo e esconde o que há de verdadeiro tão fundo que nem a própria pessoa chega até lá. A fachada funciona direitinho – o sujeito pode ser simpático, bem-sucedido, casado. Ele apenas não mora ali; está presente de modo puramente formal.
Os vizinhos com que se confunde
Transtorno do espectro autista. A confusão mais frequente e mais importante. No autismo o primário é um déficit: a pessoa tem dificuldade de ler sinais sociais, pode não captar subtextos, entonações, o não dito. Na organização esquizoide a compreensão social está preservada – muitas vezes é até fina demais –, mas falta a necessidade de usá-la. E o interesse também é pouco. Em resumo: um não consegue e gostaria; o outro consegue e não quer[4]. A distinção é decisiva, porque a ajuda necessária é completamente diferente.
Transtorno esquizotípico. Também há distanciamento, mas com outro conteúdo: crenças estranhas, pensamento mágico, fala incomum, distorções da percepção. A pessoa esquizoide pode ser peculiar o quanto for, mas a sua visão de mundo continua comum.
Depressão. Quem distingue é a pergunta sobre o tempo: o isolamento depressivo tem um começo («antes eu era diferente»); o esquizoide é um jeito de viver desde a juventude. Além disso, na depressão o prazer some também nas atividades solitárias, ao passo que a pessoa esquizoide continua viva dentro do seu mundo interno.
E aquilo que não é transtorno nenhum. A introversão é uma característica de temperamento, não uma patologia; o mesmo vale para traços autísticos em sentido amplo, para o amor ao próprio ofício, para a necessidade de silêncio. Aqui o diagnóstico é dado com pressa e frequência demais – em geral por quem se incomoda de conviver com essas pessoas.
Por que procuram ajuda – e por que raramente
As pessoas esquizoides procuram ajuda menos do que quaisquer outras do cluster[1][2], e a razão é simples: a organização delas não cria problemas para quem está em volta e, por muito tempo, não cria problemas para elas mesmas. A queixa com que chegam quase nunca soa como «estou sozinho».
Em geral, uma de três coisas as traz. A primeira é o ultimato do parceiro: «ou a gente faz alguma coisa, ou a gente se separa». A segunda é o momento em que a casa ficou silenciosa demais: costuma ser depois dos quarenta, quando se descobre que o mundo interno não substitui nenhuma pessoa viva e que o hábito de se virar sozinho foi longe demais. A terceira é uma depressão ou um esgotamento que se sobrepôs; aí a organização esquizoide é descoberta já no curso do trabalho, como pano de fundo.
A terapia é necessária no transtorno esquizoide e o que acontece nela
Aqui tudo começa pelo que não se deve fazer. Não se deve ser caloroso e solícito demais. Não se deve perguntar sobre sentimentos de forma direta nos primeiros encontros. Não se deve colocar como objetivo «ficar mais sociável» – e, se o próprio cliente trouxer esse objetivo, vale primeiro descobrir de quem ele é de verdade. Muito provavelmente é uma cobrança das pessoas importantes ao seu redor.
O trabalho se organiza de um modo diferente do que se faz nos demais transtornos do cluster. A distância não é encurtada – é reconhecida. O terapeuta ocupa uma posição ao lado, e não em frente: não exige abertura, não se assusta com as pausas, não preenche o silêncio. Para quem, historicamente, todo interesse por si significou invasão, a mera existência de uma relação em que ninguém se intromete já é uma experiência nova.
A etapa seguinte do trabalho: aparece aquilo que dá sentido a todo o trabalho – a possibilidade de mostrar o mundo interno e descobrir que ele não foi tomado e que ninguém devorou a pessoa. Aquela cidade imaginária, contada em voz alta pela primeira vez em vinte anos, costuma se tornar o ponto de virada do trabalho, porque pela primeira vez se testa a hipótese «se eu mostrar, isso deixa de ser meu, vai embora, se dissolve e estraga tudo».
E só então vem a questão da porta. Não o conselho banal de «comece a ir a festas», e sim outro, bem mais preciso: com quem e a que distância você gostaria de lidar, se pudesse escolher livremente em vez de se defender (o «se» aqui não é acaso – ele marca o respeito pela distância). Para muita gente a resposta é modesta: uma ou duas pessoas, pouco e profundo. Esse é um resultado normal, não um resultado pela metade – o objetivo da terapia aqui não é transformar um introvertido em extrovertido, nem um esquizoide num ciclotímico aberto, e sim devolver a escolha, que é um valor existencial.
Os prazos são honestamente longos: fala-se em anos, não em meses, e em boa medida porque a primeira etapa – o estabelecimento de uma distância segura – já leva muito tempo por si só. Todos os psicanalistas confirmam isso, e seus seguidores falam bastante a respeito. Sobre o que diferencia o trabalho com o caráter do trabalho com o sintoma, veja o texto «Psicoterapia profunda».
O que dá para notar sozinho
Não são exercícios, são observações – neste caso elas servem mais do que tarefas.
Distinguir recuperação de fuga. Depois de um tempo sozinho você volta renovado – ou apenas ficou recolhido até o perigo passar? A primeira coisa é o seu regime normal; a segunda é evitação, e são coisas diferentes, ainda que pareçam iguais.
Notar onde você está vivo. Existe alguma pessoa, algum ofício ou algum lugar perto do qual o distanciamento some sozinho? Se sim, o mecanismo funciona, não está quebrado – e isso é uma boa notícia.
Verificar quem exatamente está insatisfeito. Quanto do seu «preciso me relacionar mais» é seu mesmo – e quanto é voz alheia: do parceiro, do pai ou da mãe, de uma cultura que considera a introversão um defeito?
Encontrar o que não se traduz em palavras. Se para a pergunta «no que você está pensando» não há resposta honesta, isso não é vazio. É aquilo para o qual ainda não se achou uma linguagem. A terapia é, em boa parte, a busca dessa linguagem e a construção dessa linguagem.
Se você se reconheceu aqui – na sua casa de paredes grossas e porta invisível –, saiba: a porta existe. A terapia não vai derrubar paredes nem arrastá-lo para uma roda barulhenta: as paredes são suas, e foram honestamente conquistadas. Trata-se apenas de a porta ganhar uma maçaneta do lado de dentro – e de ser você quem a abre, quando você mesmo quiser.
Perguntas com que as pessoas chegam
A terapia é necessária se para mim está tudo bem?
Não. A organização esquizoide por si só não é doença, e quem está bem na sua casa não precisa de tratamento. As pessoas costumam vir por um de três motivos: um ultimato do parceiro, a casa que ficou silenciosa demais depois dos quarenta, ou uma depressão que se somou por cima. Se não há nenhum deles, esta página é só sobre como você é feito.
O transtorno esquizoide tem tratamento?
O objetivo da terapia aqui não é tornar a pessoa sociável, e sim devolver-lhe a escolha: com quem e a que distância se relacionar, se fosse possível escolher em vez de se defender. Para muitos a resposta é modesta – uma ou duas pessoas, pouco e a fundo, e esse é um resultado pleno. Os prazos são longos, anos: a própria primeira etapa, a distância segura no consultório, leva muito tempo.
Quando procurar antes um médico?
Se ao distanciamento se somaram abatimento por semanas, perda de interesse até por aquilo que sempre sustentou, alterações do sono – isso é depressão, e é preciso começar pelo psiquiatra. Se surgiram vivências estranhas – os pensamentos não são seus, o que acontece foi armado –, ao médico sem demora: essa já é outra história.
Transtorno de personalidade esquizoide e esquizofrenia – qual a diferença?
É de princípio, apesar dos nomes parecidos. A esquizofrenia é um transtorno psicótico: alucinações, delírios, desorganização do pensamento, perda de contato com a realidade. Quem trata é o psiquiatra, e a medicação é obrigatória. O transtorno de personalidade esquizoide não é psicose: o contato com a realidade está totalmente preservado, a pessoa pensa com clareza, apenas é feita de um jeito em que a proximidade lhe faz pouca falta e o mundo interno é mais rico que o externo.
Em comum, na prática, só a raiz da palavra. Uma pessoa de feitio esquizoide pode trabalhar e criar a vida inteira sem nenhum sinal de psicose. Se aparecem vozes, experiências estranhas, a sensação de que leem ou inserem pensamentos, é caso de psiquiatra, e já não se trata de personalidade.
Testar-se
Os questionários não fazem diagnóstico – eles dão uma linguagem e números com os quais dá para chegar à consulta.
Vale fazer o ECR-R à parte: ele mostra o polo evitativo do apego – justamente aquele «fico mais tranquilo quando não é perto demais» – e muitas vezes é o resultado dele que explica mais à pessoa do que uma lista de critérios diagnósticos.
Fontes
(pesquisei a fundo de propósito, para não parecer um fantasiador sem provas)
- Torgersen S., Kringlen E. et al. The prevalence of personality disorders in a community sample. Archives of General Psychiatry, 2001. PubMed
- Grant B. F., Hasin D. S. et al. Prevalence, correlates, and disability of personality disorders in the United States: results from the national epidemiologic survey on alcohol and related conditions. Journal of Clinical Psychiatry, 2004. PubMed
- Akhtar S. Schizoid personality disorder: a synthesis of developmental, dynamic, and descriptive features. American Journal of Psychotherapy, 1987. PubMed
- Lugnegård T., Hallerbäck M. U. et al. Personality disorders and autism spectrum disorders: what are the connections?. Comprehensive Psychiatry, 2012. PubMed
- Triebwasser J., Chemerinski E. et al. Schizoid personality disorder. Journal of Personality Disorders, 2012. PubMed
Para colegas e estudantesDiagnóstico. CID-10: F60.1. CID-11: diagnóstico por gravidade (6D10.0–6D10.2) com o qualificador «distanciamento» (6D11.2); não há categoria esquizoide separada. DSM-5-TR: ≥4 de 7 critérios – não deseja nem obtém prazer em relações próximas, quase sempre escolhe atividades solitárias, pouco interesse por experiências sexuais com outra pessoa, obtém prazer em poucas atividades, ausência de amigos íntimos além de parentes de primeiro grau, indiferença a elogios e críticas, frieza emocional e afetividade embotada. A prevalência, segundo dados epidemiológicos, gira em torno de 3–5%, sendo a busca por tratamento a mais baixa de todo o cluster A[1][2].
Compreensão psicodinâmica. Fairbairn (1940, 1952): a posição esquizoide como básica; o conflito não é entre pulsão e proibição, e sim entre a necessidade do objeto e o medo de danificá-lo ou de ser devorado por ele. Guntrip (1968) descreveu o «compromisso esquizoide» – o movimento simultâneo em direção ao objeto e para longe dele – e o sentimento característico de um «ego regredido» escondido atrás da fachada. Winnicott: verdadeiro e falso self, a retirada para o isolamento como defesa do núcleo da personalidade; daí a regra clínica de não forçar a abertura. Akhtar (1987) sistematizou as características manifestas e as encobertas[3]: distanciamento externo com hipersensibilidade oculta, aparente assexualidade com vida de fantasia intensa, autonomia com profunda dependência de objetos internos. McWilliams sublinha que a organização esquizoide ocupa todo o espectro – do funcionamento saudável à patologia grave –, e que o clínico encontra com mais frequência o primeiro, mas descreve pelo manual o segundo. Historicamente: Kretschmer (1921) descreveu o tipo constitucional esquizotímico; Bleuler introduziu o próprio termo.
Diagnóstico diferencial. O par decisivo é o transtorno do espectro autista: déficit primário de cognição social e comunicação versus capacidade preservada com motivação reduzida; considerar a história do desenvolvimento, a presença de estereotipias e as particularidades do processamento sensorial[4]. Transtorno esquizotípico – presença de distorções cognitivo-perceptivas. Transtorno evitativo – desejo de proximidade preservado e marcante, acompanhado de medo da rejeição (comorbidade frequente, que exige separar as camadas). Episódio depressivo – retraimento com início delimitado e perda de prazer inclusive nas atividades solitárias. Fenômenos prodrômicos da esquizofrenia – exclusão obrigatória quando surgem alterações perceptivas e ideias de referência.
Terapia. A base de evidências é escassa: praticamente não existem ECRs específicos para o transtorno esquizoide[5], o que por si só é diagnóstico – esses pacientes raramente chegam aos estudos. O consenso prático dos autores psicodinâmicos: ritmo lento, recusa da interpretação forçada, respeito à distância como necessidade estrutural, e não como resistência; a relação terapêutica como instrumento principal. Formatos grupais nas etapas iniciais costumam ser contraindicados. Farmacoterapia – apenas para as condições associadas. O objetivo do trabalho se formula como ampliação do acesso à própria experiência e devolução da escolha, não como aumento da atividade social.
Referências
- Fairbairn W. R. D. Schizoid factors in the personality (1940). In: Psychoanalytic Studies of the Personality. Routledge, 1952.
- Guntrip H. Schizoid Phenomena, Object Relations and the Self. International Universities Press, 1968.
- Winnicott D. W. Ego distortion in terms of true and false self (1960). In: The Maturational Processes and the Facilitating Environment. Hogarth, 1965.
- McWilliams N. Psychoanalytic Diagnosis. 2nd ed. Guilford Press, 2011.
- Klein M. Notes on some schizoid mechanisms. International Journal of Psycho-Analysis, 1946; 27: 99–110.
- Kretschmer E. Körperbau und Charakter. Springer, 1921.
- Millon T., Davis R. Disorders of Personality: DSM-IV and Beyond. 2nd ed. Wiley, 1996.
- Beck A. T., Freeman A., Davis D. Cognitive Therapy of Personality Disorders. 2nd ed. Guilford Press, 2004.
- Grant B. F. et al. Prevalence, correlates, and disability of personality disorders in the United States (NESARC). Journal of Clinical Psychiatry, 2004; 65(7): 948–958.
- Triebwasser J., Chemerinski E., Roussos P., Siever L. J. Schizoid personality disorder. Journal of Personality Disorders, 2012; 26(6): 919–926.
- Schopenhauer A. Parerga und Paralipomena, 1851 (parábola dos porcos-espinhos).
- Smulevich A. B. Transtornos da personalidade: trajetória no espaço da patologia psíquica e somática. Moscou: MIA, 2012 (em russo).
- Gannushkin P. B. Clínica das psicopatias: estática, dinâmica, sistemática. Moscou, 1933 (em russo; sobre esquizoides e sonhadores).
- OMS. Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão, seção 6D10–6D11.










