A ansiedade é o motivo mais frequente pelo qual as pessoas procuram um psicólogo pela primeira vez. E o mais subestimado: vive-se com ela por anos, abafa-se com café e força de vontade, verifica-se no cardiologista e no endocrinologista – em todo lugar, menos onde ela realmente mora. Este texto é uma análise detalhada de todo o espectro: do medo de uma prova ou de voar até os ataques de pânico. Como a ansiedade funciona, onde fica a fronteira entre o normal e o transtorno, o que ajuda rápido, o que não ajuda de jeito nenhum e como a psicoterapia trabalha com ela.
Em resumo. A ansiedade é um alarme que dispara antes do perigo e se alimenta da evitação. Dá para lidar sozinho com o que tem endereço: expiração mais longa que a inspiração, respiração 7-4-3, neuromassagem, a técnica de nomear cinco objetos, quatro cheiros e três sons ao seu redor, sono, movimento e até – por paradoxal que pareça – um encontro possível com aquilo que se evita. É hora de um psicólogo quando a ansiedade estreita a vida – você desiste de voos, encontros, decisões – ou vive sem motivo por mais de um mês. De um psiquiatra, se há insônia persistente, perda de peso, ataques de pânico várias vezes por semana ou abatimento. Os transtornos de ansiedade são um dos alvos mais gratos da terapia: mudanças perceptíveis costumam aparecer em alguns meses, e medos pontuais vão embora mais rápido.
Como isso se parece por dentro
Três da manhã. Amanhã é um dia comum, nada de assustador na agenda. Mas a cabeça já passou uma hora repassando uma conversa de semana passada, depois uma conversa que ainda não aconteceu, depois o que vai ser se tudo der errado. O corpo está exausto, mas por dentro é como se alguém segurasse o dedo no botão «atenção, perigo» – e não soltasse.
A matéria foi estudada, nos simulados tudo saía. Três dias antes da prova some o sono; um dia antes, a capacidade de lembrar qualquer coisa. Na sala, a cabeça fica vazia – e uma hora depois de sair, tudo volta sozinho. E assim toda vez, pelo segundo ano seguido. E não sai da cabeça o pensamento: «mas eu sabia, o que foi que aconteceu?!»
As passagens foram compradas há seis meses. Uma semana antes do voo surge o pensamento «e se eu for de ônibus»; três dias antes, a previsão do tempo na rota e as estatísticas de acidentes; na véspera, o quase decidido «vou cancelar». Às vezes cancela. Mais raramente – voa e passa as quatro horas sem soltar o apoio de braço.
Meio do expediente. O coração de repente acelera, as mãos suam, o ar parece pouco. Um único pensamento: «algo está acontecendo comigo». Emergência, eletrocardiograma, «o senhor está saudável». Duas semanas depois – de novo. Agora, à ansiedade de sempre somou-se uma nova: a de quando isso vai acontecer outra vez.
Um convite para um encontro com gente desconhecida, ou simplesmente um date com alguém que você não conhece. Ir ao médico, ao psicólogo, falar com um policial – tudo isso entra na mesma lista. A primeira reação não é «interessante» nem «não estou a fim» – é um cálculo interno instantâneo: como recusar de um jeito que pareça aceitável. A recusa traz alívio pela noite – e um resíduo amargo por muito mais tempo. O círculo de pessoas, lugares e atividades vai encolhendo devagar, e isso passa quase despercebido, porque cada recusa isolada parecia razoável.
Você disse cem vezes que aquele projeto precisava ser conduzido de outro jeito. A chefia enfim propôs: conduza. De lá para cá passaram três semanas, a apresentação não foi começada, mas todas as fontes foram relidas, o e-mail foi limpo e os arquivos organizados. O prazo é sexta, e você já calcula como recusar sem perder a cara.
Se algo disso soa familiar – não se trata apenas de «estou inventando coisa». Em todas essas cenas funciona um mesmo mecanismo, e ele é bem estudado.
O que é a ansiedade, de verdade
A ansiedade é um sistema de alarme embutido em cada um de nós pela evolução. O trabalho dele é notar uma possível ameaça antes que a ameaça note você, e preparar o corpo: acelerar o coração, tensionar os músculos, aguçar a atenção. Para os nossos antepassados, esse sistema resolvia uma questão de vida ou morte. Mas também para nós, moradores de cidades, vivendo num ambiente relativamente seguro, ele resolve a mesma questão – só que a vida mudou, e as configurações ficaram as de antes.
A diferença-chave entre ansiedade e medo: medo é sobre um perigo concreto, aqui e agora (um cachorro correndo na minha direção, um assaltante apontando uma arma carregada para mim); ansiedade é sobre um perigo possível, em algum lugar do futuro (e se algo acontecer). A ansiedade é um medo sem objeto, um prenúncio; o medo, esse, se vê com mais ou menos clareza. E o medo não necessariamente liga e desliga junto com a ameaça. Já a ansiedade sabe funcionar sem ameaça nenhuma – ela existe quase de forma autônoma em relação ao perigo real.
E aqui começa o principal. O problema da pessoa ansiosa não é que o alarme dela funciona. Ele funciona em todo mundo, e isso é bom. O problema é que ele está calibrado sensível demais: dispara com a fumaça da torradeira tão alto quanto com um incêndio. Formalmente, o sistema está certo – fumaça houve. Na prática, viver sob uma sirene que toca dez vezes por dia é impossível.
Um pouco de história
A ansiedade é a vertigem da liberdade.
– Søren Kierkegaard, «O Conceito de Angústia», 1844
Os filósofos entenderam isso antes dos psicólogos. Rollo May, em «O Significado da Ansiedade», mostrou: a ansiedade aparece onde há escolha, futuro e valores – ou seja, onde você está vivo e as coisas não lhe são indiferentes. «Curar» a ansiedade por completo significaria parar de querer e de escolher. A terapia não tem essa meta. A meta é recalibrar o alarme: que ele avise do real e silencie sobre o resto.
Ansiedade, traço ansioso, transtorno – são três coisas diferentes
Ansiedade é uma emoção. Surge em todo mundo, dura minutos e horas, está presa a uma situação: prova, entrevista, resultado de exame. Passou a situação – passou a ansiedade. Isso é norma, e muitas vezes não há o que tratar. No entanto, quando a ansiedade paralisa fortemente a consciência e paralisa a atividade, vale olhar mais fundo: o que se esconde atrás dela? Eis algumas cadeias típicas.
1. «Não passo na prova – sou expulso da faculdade – me repreendem e me humilham por eu ser um fracassado». Aqui, atrás da ansiedade, esconde-se um mecanismo mais sério, ligado ao medo da desvalorização e à agressão dirigida a si mesmo.
2. «Meus exames vêm ruins – descubro que tenho uma doença incurável – vou ser uma pessoa incompleta – não farei o que devia e vou morrer». Neste caso, a cadeia de raciocínio revela o medo das oportunidades perdidas.
3. «Não passo na entrevista – não me contratam – fico na miséria». E adiante: minha família sempre teve pouco dinheiro, me repreendiam por pedir demais, e eu decidi provar que dava conta sozinho. E agora não deu certo – fracasso. Uma cadeia dessas pode indicar que o problema é bem mais profundo, e a entrevista não realizada, somada a um pequeno exercício psicológico, revela a causa mais ou menos verdadeira.
Traço ansioso é temperamento. Uma tendência estável de reagir com ansiedade com mais frequência e intensidade que a média. Essa pessoa «sempre foi preocupada» – é assim que o seu temperamento funciona, e em boa parte isso é inato. Por si só, o traço ansioso também não é diagnóstico: entre pessoas ansiosas há muitas que vivem muito bem, apenas um pouco mais atentas aos riscos que as demais.
Transtorno de ansiedade é quando a ansiedade deixa de ser reação e vira o pano de fundo que administra a vida. E aqui é preciso uma checagem honesta – as mesmas três perguntas que faço no encontro diagnóstico.
1. Estabilidade. Esse estado dura semanas ou meses, e não dias e minutos? Ansiedade diante de um dia difícil ou de uma reunião importante é norma. Ansiedade na expectativa de algo fora do comum – também é normal. Ansiedade que não desliga por várias semanas, meses, meio ano – essa já não é.
2. Totalidade. Ela toma áreas diferentes – trabalho, relações, saúde, sono – ou mora num ponto único e compreensível? Ficar tenso antes de uma reunião importante é uma particularidade, e é até normal. Ficar tenso com tudo, sempre – é sintoma.
3. Preço. Quanto de vida ela come? Viagens recusadas, ligações não feitas, noites mal dormidas, portas e exames conferidos dez vezes. Se o preço é visível e cresce – é hora de investigar, independentemente das duas primeiras respostas. Ou então preocupar-se com um único motivo, mas de tal forma que essa ansiedade toma tudo, inunda, tira a razão, impede de viver – você não pensa em nada além do acontecimento que o angustia. Isso não é norma.
Ao menos um «sim» entre os três já é motivo suficiente para vir a uma consulta. Não porque «você tem um transtorno» – três perguntas não determinam isso –, mas porque a ansiedade já custa mais caro do que o trabalho com ela.
E há ainda um marcador mais confiável que qualquer lista de sintomas: a repetição. Nervosismo antes da primeira apresentação da vida é um acontecimento. O mesmo estado antes de cada apresentação ao longo de dez anos é um padrão estável. Padrão tem mecanismo, e mecanismo pode ser desmontado e reajustado.
O círculo vicioso: como a ansiedade alimenta a si mesma
A ansiedade tem um mecanismo de autossustentação, e ele é genial na sua simplicidade. O esquema: ansiedade → evitação → alívio → ansiedade mais forte.
Cada vez que você evita o que assusta – cancela a viagem, não vai ao encontro, não abre a carta do banco –, vem o alívio. Agradável, rápido, real. E o cérebro tira uma conclusão falsa: «o perigo era real, a evitação nos salvou». O alarme recebe a confirmação de que estava certo e, na próxima vez, dispara mais cedo e mais alto. O círculo de pessoas, atividades e lugares encolhe, e a ansiedade cresce – porque você nunca se deu a chance de verificar o que aconteceria se tivesse ficado.
Isso é o principal a entender sobre a ansiedade: quem a alimenta não é o perigo, e sim aquilo que se esconde atrás desse perigo. Faço uma ressalva: não estou convocando ninguém a «ir contra a ansiedade» – do tipo «se você tem medo de comer diante dos outros, então coma». Um conselho desses é bastante tolo e não funciona. O que eu proponho é começar a investigar a ansiedade e tratá-la de forma sistemática, como um fenômeno complexo, sem atribuir tudo a «mau caráter», «falta de vontade», «preguiça» e coisas do gênero. E é justamente aí que a terapia atua.
As máscaras da ansiedade
Os transtornos de ansiedade são o grupo de transtornos mentais mais comum do mundo: ao longo da vida, cerca de uma em cada três ou quatro pessoas passa por isso. As formas variam, o mecanismo é um só. A seguir, as principais, uma a uma, começando pela mais frequente na minha prática.
Avaliação: provas, entrevistas, apresentações, promoções
A causa mais comum de procura – e a menos reconhecida, porque tem um bom disfarce. Clinicamente é ansiedade social, mas não é com esse nome que ela chega. Chega como «vou mal nas provas», «não sei me vender», «deixo tudo para a última hora».
Medo da avaliação: apresentar-se, conhecer alguém, ligar para um desconhecido, comer diante das pessoas, ir ao médico, comparecer a um atendimento numa repartição. Por dentro – a certeza de que os outros olham com rigor e memorizam cada gafe. Por fora – «ele é só tímido». Entre essas duas descrições, uma pessoa pode viver décadas sem nunca chamar o que acontece pelo nome. Sobre isso – num próximo artigo, sobre a vergonha.
Depois disso, a forma depende das circunstâncias.
Provas e testes. O conhecimento existe, o acesso a ele na hora certa não. A ansiedade consome o recurso da memória de trabalho – justamente aquela com que se lembra. A pessoa tira uma conclusão de aparência razoável: «não sei bem a matéria», senta para estudar mais ainda, e a prova seguinte se repete igual, porque o problema não era a matéria.
Entrevistas. Uma candidatura é sobre o texto. A entrevista é sobre você. Quem escreve com calma uma ótima carta de apresentação pode passar meses adiando o encontro em que é preciso olhar nos olhos e responder a «fale sobre você». De fora, parece desorganização ou falta de motivação; por dentro, é impossibilidade.
Apresentações e falas em público. Aqui entram também as reuniões em que é preciso se pronunciar e as ligações para desconhecidos. Sobre o medo de falar escrevi com mais detalhe no artigo «Diálogo como base da proximidade»: o diálogo exige mostrar-se, e mostrar-se é o mais assustador quando se espera avaliação.
Procrastinação. A variante mais subestimada, e quase nunca trazida como ansiedade – vem como «sou preguiçoso» e «tenho problema de disciplina». Mas olhe a estrutura: terceira semana, apresentação não começada, porém todas as fontes relidas e os arquivos organizados. Isso não é descanso nem preguiça – essa atividade cansa mais que o trabalho. É evitação: enquanto o arquivo não é aberto, não há avaliação e, portanto, não há fracasso. O círculo funciona como sempre: não abriu – alívio – amanhã abrir fica ainda mais difícil.
O sucesso como ameaça. História à parte e muito frequente. A pessoa passa anos propondo mudar o processo, enfim lhe dizem «conduza» – e a partir desse dia tudo trava. A lógica da ansiedade aqui é férrea: enquanto a ideia era proposta, não dava para fracassar nela. Assim que virou o seu projeto, surgiu a possibilidade de não dar conta – diante justamente daqueles para quem você a defendeu. A promoção funciona igual: mais atribuições significam mais visibilidade, e visibilidade, para esse sistema, é sinônimo de perigo. Muitas carreiras param exatamente aqui, e quase ninguém chama isso de ansiedade.
Sinal prático que separa isso da preguiça de verdade: preguiça é agradável, evitação não é. Depois de um dia de ócio a pessoa descansou. Depois de um dia de evitação, está exausta e culpada, embora formalmente não tenha feito nada.
Proximidade: a ansiedade que liga quando está tudo bem
A segunda demanda mais frequente – e a mais injusta, porque dispara não diante de uma ameaça, mas diante da aproximação daquilo que a pessoa quer. A relação vai bem, o parceiro propõe o passo seguinte, e no lugar da alegria acende o sinal corporal conhecido: corra.
O mecanismo é o mesmo, a ameaça é outra. Na ansiedade de avaliação, o medo é ser visto de forma ruim. Na ansiedade de proximidade, o medo é ser visto inteiro – incluindo o que normalmente não se mostra. Quanto mais perto a pessoa está, mais ela vê, e mais alta fica a aposta: agora há o que perder.
Depois vem a evitação, em formas reconhecíveis: a briga do nada, o esfriamento súbito, a busca por defeitos que ontem não existiam, ou o desaparecimento silencioso – sobre ele escrevi à parte no artigo «Ghosting». Toda vez vem o alívio, e toda vez a aproximação seguinte custa mais caro.
Sobre do que a proximidade é feita e por que ela exige mais do que simpatia mútua – o artigo «A proximidade é mais do que corpo e mente».
Se você se reconheceu, comece por este inventário. Ele não mostra «se você é um bom ou mau parceiro», e sim como o seu apego funciona: o quanto lhe é ansioso aproximar-se e o quanto lhe é habitual afastar-se.
Quando o medo tem endereço certo: as fobias
Medo intenso de um objeto ou situação concretos – voar, elevadores, metrô, altura, dentistas, sangue, cachorros. A forma mais compreensível de ansiedade: a ameaça tem nome, os limites estão traçados, e entre os confrontos a pessoa vive uma vida comum. E, aliás, a que melhor responde à terapia.
Com o medo de voar costuma-se trabalhar assim: primeiro se examina o que acontece no corpo e nos pensamentos em cada etapa – da compra da passagem ao pouso –, treinam-se habilidades de autorregulação e só então vem o encontro gradual e viável com a situação. Isso não é «se forçar»: forçar-se sozinho e em pânico costuma fixar o medo em vez de removê-lo.
Um detalhe importante: as fobias tendem a se expandir. Começa com aviões, um ano depois evita-se o metrô, mais um ano e são os elevadores e os trens. O que se expande não é o medo em si, e sim o hábito de recuar: cada recuo confirma que o mundo é perigoso, e o alarme passa a disparar em situações vizinhas. Por isso é melhor desmontar a fobia enquanto ela tem um endereço só.
Medo de perder a oportunidade: a ansiedade da escolha
Duas vagas, duas cidades, duas pessoas, cem abas abertas com apartamentos. A decisão fica pendurada por semanas – não por falta de opções, mas porque qualquer escolha fecha as outras. A ansiedade aqui protege não de um perigo, e sim da perda de possibilidade: e se justamente aquilo que você recusou era o certo.
Isso costuma terminar do mesmo jeito: os prazos vencem, a escolha se faz sozinha, e resta a amargura – dessa vez justificada. O paradoxo é que não escolher também é escolher, só que sem a sua participação.
Esta forma é a mais próxima do que os filósofos chamavam de ansiedade existencial: ela não nasce de uma história de infância, e sim da estrutura da própria vida, onde o futuro é desconhecido e a responsabilidade pelas decisões é sua. Sobre isso tenho dois textos: «Vivendo na incerteza» – sobre como viver quando não há garantias – e «Terapia existencial na crise da meia-idade» – sobre o momento em que as escolhas adiadas cobram a conta de uma vez.
Quando a ansiedade deixa de escolher motivo
Tudo o que veio antes é ansiedade com endereço: sabe-se onde liga e por quê. Nem sempre é assim.
Ansiedade generalizada. Preocupação com tudo em sequência e com nada em particular: saúde, dinheiro, família, trabalho – os temas mudam, o fundo permanece. O sintoma principal, que as pessoas estranhamente não consideram sintoma: a incapacidade de relaxar mesmo quando está tudo bem. Somam-se tensão muscular, cansaço, irritabilidade e um sono que não descansa.
Transtorno de pânico. Crises súbitas de medo intenso com reação corporal violenta: taquicardia, falta de ar, tontura, sensação de «vou morrer» ou «vou enlouquecer». A crise passa em minutos, mas deixa o combustível principal do transtorno – o medo da próxima crise. Ataques de pânico, em si, não são perigosos para a vida. Nenhum dura para sempre, nenhum mata – mas cada um mente de forma convincente que este, sim.
Ansiedade de saúde. Escaneamento constante do corpo em busca de sintomas, sites de medicina até de madrugada, exames «por garantia» e um alívio curto depois de cada «está tudo bem» – até o próximo sintoma. Os médicos abrem os braços, porque, na parte deles, está tudo limpo mesmo.
As formas costumam se combinar e se transformar umas nas outras, e a ansiedade gosta de andar em dupla com a depressão – elas aparecem juntas com tanta frequência que vale checar as duas. Por isso o DASS-42, logo abaixo, mede as duas ao mesmo tempo.
Por que «verifique a tireoide» é o passo certo – mas não pode ser o único
A ansiedade é um estado corporal. Taquicardia, suor, nó na garganta, tontura, arrepios, o estômago que «se aperta» – nada disso é imaginação; é fisiologia bem real: o organismo como que se prepara para correr ou lutar, como os antepassados ensinaram. Só que, na maioria das vezes, não há com quem lutar nem de quem fugir. Você acorda de manhã – e já está em ansiedade, às lágrimas. Por isso a pessoa ansiosa vai parar primeiro no cardiologista, depois no neurologista, depois no endocrinologista.
E essa ordem está certa! A parte somática precisa mesmo ser excluída: problemas de tireoide, anemia, arritmias sabem se parecer com ansiedade. Mas se a ronda de médicos terminou, os exames estão limpos e os sintomas continuam – as próximas voltas já não são diagnóstico, são uma forma de evitação. O corpo está saudável. Ele apenas cumpre as ordens de um sistema calibrado para ameaça permanente.
De todo modo, o conteúdo psíquico costuma estar presente independentemente da existência ou não de doenças somáticas capazes de induzir ansiedade. E esse conteúdo psíquico – sobretudo quando a ansiedade é de ordem superior e se liga a necessidades humanas superiores: pertencimento, amor, necessidade de autorrealização, de «ser quem se é» – exige atenção especial.
O que ajuda desde já
Isto não substitui terapia – é primeiro socorro: o que abaixa o volume da sirene enquanto você lida com as causas.
Respiração com expiração longa. Inspire contando até quatro, expire contando até seis-oito. Dois ou três minutos. Não é esoterismo: a expiração longa ativa o sistema parassimpático – o freio fisiológico da ansiedade. Funciona na crise e funciona como rotina, algumas vezes ao dia.
Respiração com retenção na inspiração. Também ativa o sistema parassimpático, e um pequeno excesso de gás carbônico freia a excitação excessiva.
Aterramento 5-4-3-2-1. Encontrar com os olhos cinco objetos, ouvir quatro sons, tocar três superfícies, captar dois cheiros, um sabor. O sentido é devolver a atenção do futuro imaginado, onde a ansiedade mora, para o presente real, onde agora mesmo não está acontecendo nada.
Hora marcada para se preocupar. Soa meio idiota, mas às vezes funciona surpreendentemente bem: 20 minutos por dia, no mesmo horário, você senta e se preocupa – por escrito, em lista. Para todo pensamento ansioso fora desse horário: «anotado, resolvo às 19h». A ansiedade, aliás, tolera mal uma agenda.
Os primeiros quinze minutos no lugar da tarefa inteira. Contra a procrastinação ansiosa: combine consigo abrir o arquivo e trabalhar quinze minutos, com direito a fechar quando o cronômetro tocar. A evitação se apoia na imagem da tarefa inteira, na qual dá medo fracassar; quinze minutos não acionam essa imagem.
Revisão dos estimulantes. Cafeína é combustível legalizado da ansiedade: em pessoas sensíveis, duas ou três xícaras produzem o conjunto completo de sintomas corporais, que o cérebro imediatamente explica como «algo grave». O álcool é mais traiçoeiro: à noite reduz a ansiedade, de madrugada e de manhã devolve com juros. A privação de sono e a ressaca amplificam tudo de uma vez.
Movimento. Atividade aeróbica regular é a ferramenta antiansiedade mais subestimada, com efeito comprovado. Um corpo que «correu» a sua reação de luta ou fuga dorme mais tranquilo.
O que não funciona – por mais que se queira
«Só não pensa nisso / relaxa». Tente não pensar num urso branco. A supressão de pensamentos os fortalece – é um fato experimental. O conselho «relaxa» nunca acalmou ninguém, mas já convenceu muita gente de que há algo de errado consigo, já que não consegue.
Pesquisar sintomas na internet. O buscador é feito de um jeito que, para «taquicardia causas», você recebe tanto «beba água» quanto «infarto». O cérebro ansioso escolhe o segundo – sempre. Isso não é busca de informação, é seguir alimentando o alarme.
Calmantes «autoprescritos». Gotas sem receita dão efeito de placebo e de ritual. Ansiolíticos de receita, tomados por conta própria, são o caminho direto para a dependência: ensinam rápido ao cérebro que sem comprimido não dá. Farmacoterapia para ansiedade às vezes é necessária e funciona bem – mas na dupla psiquiatra + psicoterapia, e não como um jeito de não ir a nenhum dos dois. E, se a pessoa começa a tomar um ansiolítico sem prescrição, é muito fácil cair no extremo oposto – até um comportamento desinibido, antissocial.
Esperar que «passe sozinho». A emoção – essa até pode passar. O transtorno é construído como o círculo do capítulo anterior: não se dissolve sozinho e, em média, vai se alargando devagar.
Quando a ansiedade pede um profissional e como a psicoterapia trabalha
A boa notícia: os transtornos de ansiedade são um dos alvos mais gratos da psicoterapia. Não são «anos no divã»: com trabalho sistemático, mudanças perceptíveis costumam aparecer em questão de meses e, em demandas pontuais como medo de voar ou de falar em público, mais rápido. Sobre por que, ainda assim, os prazos não se medem em semanas – a conversa está no artigo «Quero me curar rápido».
O que acontece no trabalho. Primeiro, o mapa: onde exatamente o seu alarme dispara, o que aciona o círculo, com que você o alimenta. Só isso já reduz a ansiedade: o que mais assusta é aquilo que não tem nome nem forma. Depois, a recalibragem: o encontro gradual e viável com o que você evitava – no ritmo que combinamos, e com um apoio que você não tinha quando a ansiedade se formou. O cérebro recebe uma experiência nova: «eu fiquei – e sobrevivi, e até dei conta». É a experiência nova, não o conhecimento novo, que reajusta o sistema.
E, em paralelo, a pergunta que separa o trabalho profundo das técnicas de autoajuda: «sobre o que é a sua ansiedade?» Atrás do «e se algo acontecer com os meus» pode estar um luto não vivido. Atrás do medo da avaliação – uma história em que se amava por conquistas. Atrás da fuga da proximidade – uma experiência em que aproximar-se não era seguro. Atrás da ansiedade de saúde – uma solidão que não há a quem contar. O alarme não toca à toa – às vezes ele é o único que diz a verdade sobre como você realmente anda vivendo. Então o trabalho com a ansiedade se revela trabalho com a vida, e essa é a parte mais interessante – sobre esse nível escrevi no artigo «Psicoterapia profunda: quando é preciso trabalhar com as raízes do problema». Se na base houver um evento traumático concreto, entram ferramentas específicas – por exemplo, o EMDR.
Quando é preciso um psiquiatra, e não só um psicólogo: se a ansiedade vem com insônia persistente, perda de peso, depressão, ataques de pânico várias vezes por semana ou pensamentos de que não dá vontade de viver – comece pelo médico. Não é «caso grave», é uma sequência sensata: aliviar o estado agudo com medicação e trabalhar as causas na terapia. Uma coisa não atrapalha a outra – ajuda.
Perguntas com que as pessoas chegam
Como lidar com a ansiedade sozinho?
Primeiro com o corpo, depois com os pensamentos: expiração duas vezes mais longa que a inspiração, sono de no mínimo sete horas, vinte minutos de caminhada, aterramento na hora do grito do «alarme». Depois – não recuar: cada evitação confirma que o mundo é perigoso, e o alarme se estende às situações vizinhas. Sozinho, isso funciona com a ansiedade que tem endereço e que ainda não tirou o sono e o trabalho. Uma página à parte sobre o mesmo – como lidar com o estresse por conta própria.
Quando procurar um psicólogo e quando um psiquiatra?
O psicólogo – quando a ansiedade estreita a vida ou vive sem motivo por mais de um mês, e a autoajuda dá um dia de alívio e devolve tudo. O psiquiatra – quando há insônia persistente, perda de peso e de apetite, ataques de pânico várias vezes por semana, abatimento por semanas ou pensamentos de não querer viver. Um não anula o outro: os remédios tiram a intensidade, a terapia examina do que a ansiedade fala, e muitas vezes eles andam em paralelo.
Quanto dura a terapia da ansiedade?
Medos pontuais – voar, falar em público, uma prova – em geral alguns encontros. Ansiedade generalizada e pânico – meses de trabalho regular, não anos. Leva mais tempo quando por trás da ansiedade aparece uma perda não vivida ou uma experiência em que se aproximar era inseguro – aí é um trabalho com a vida, não com o sintoma, e os prazos são outros.
Como isso se dá no trabalho comigo
A terapia existencial em que trabalho não é conversa sobre sentido no lugar de técnicas. Ela incorporou os métodos cognitivo-comportamentais, a psicanálise e o EMDR; por isso, no trabalho com a ansiedade há dezenas de instrumentos: o mapa de onde o alarme dispara, um encontro possível com o que se evita, o reprocessamento de um episódio concreto, se é ele que está por trás do medo. Mas a técnica aqui está sempre dentro de algo maior: atrás de «e se acontecer algo com os meus» pode haver uma perda; atrás do medo da avaliação, uma história em que se era amado pelas conquistas. Examinar isso é recuperar a parte saudável da responsabilidade pela própria vida e começar a fazer o que antes não se fazia.
E vale acrescentar o que mais se ignora: a psicoterapia não é uma pílula mágica. O rumo dela depende também do que acontece com você fora dos nossos encontros. Ela é uma ajudante para aprender a viver, e não a sobreviver: orientar-se num mundo que muda de forma caótica e imprevisível, muitas vezes por vontade de forças maiores do que nós (guerras, desastres naturais, crimes contra nós, crises macroeconômicas, perda de entes queridos ou de bens de alto valor etc.) – e na ansiedade é justamente essa habilidade que faz falta.
Testar-se
Três instrumentos com psicometria de verdade – não «testes de revista». O resultado não dá diagnóstico, mas dá números com os quais se pode chegar à consulta – ou simplesmente conferir as sensações com a realidade.
Se no DASS-42 a escala de ansiedade ficar na faixa moderada ou acima, ou se você simplesmente quiser discutir os resultados com uma pessoa viva – apareça. Não é obrigatório chegar com resultados: dá para chegar simplesmente com «tenho medo de voar» ou «faz três meses que não consigo começar a apresentação». O primeiro encontro é uma conversa e um mapa do que está acontecendo, não um compromisso de «frequentar por anos».
Diagnóstico. CID-10: F41.1 (TAG), F41.0 (transtorno de pânico), F40.1 (fobia social), F40.2 (fobias específicas), F45.2 (hipocondria). CID-11: 6B00–6B05; a ansiedade de saúde foi movida para 6B23. DSM-5-TR: critério do TAG – ansiedade e preocupação excessivas na maioria dos dias por no mínimo 6 meses, dificuldade subjetiva de controlar a preocupação, ≥3 de 6 sintomas somáticos. Diferenciar de tireotoxicose, arritmias, DPOC, hipoglicemia, efeitos de estimulantes e abstinência de benzodiazepínicos ou álcool. Manter à vista as formas subliminares: parte significativa de quem procura ajuda não soma critérios com perdas funcionais comparáveis, e a ansiedade subclínica prediz o desenvolvimento do transtorno completo (Haller 2014; Karsten 2011).
Mecanismo. Hiperexcitabilidade da amígdala com controle inibitório pré-frontal reduzido; ativação crônica do eixo HPA. No plano comportamental – reforço negativo da evitação (Mowrer, modelo bifatorial); no cognitivo – superestimação sistemática da probabilidade e do custo da ameaça com subestimação dos próprios recursos (Beck); na ansiedade social – o modelo de Clark e Wells, com foco atencional em si mesmo e ruminação pós-evento. A procrastinação ansiosa é descrita como comportamento de evitação no paradigma do reforço negativo (Sirois, Pychyl 2013), e não como déficit de autocontrole. A intolerância à incerteza é fator transdiagnóstico que liga TAG, ansiedade da escolha e fenômenos obsessivos.
Terapia. Primeira linha por NICE e APA – TCC com exposição; no transtorno de pânico e nas fobias específicas a base de evidências é a mais forte (para fobias, é eficaz até a sessão única prolongada – Öst 1989). Metanálises (Barlow; Hofmann 2012; Cuijpers 2016) mostram tamanhos de efeito médios e grandes. A terapia psicodinâmica da ansiedade tem apoio empírico próprio (Leichsenring 2013 – TAG e ansiedade social). A tradição existencial (May, Yalom) vê a ansiedade como dado ontológico, distinguindo as formas neurótica e existencial – distinção clinicamente útil no trabalho com ansiedade de escolha, responsabilidade e sentido. Farmacoterapia: ISRS/IRSN como primeira linha; benzodiazepínicos em cursos curtos, sob indicação estrita.
Referências
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- Kierkegaard S. Begrebet Angest, 1844. Ed. bras.: O Conceito de Angústia. Vozes, 2010.
- Barlow D. H. Anxiety and Its Disorders: The Nature and Treatment of Anxiety and Panic. 2nd ed. Guilford Press, 2002.
- Beck A. T., Emery G., Greenberg R. L. Anxiety Disorders and Phobias: A Cognitive Perspective. Basic Books, 1985.
- Clark D. M., Wells A. A cognitive model of social phobia. In: Social Phobia: Diagnosis, Assessment, and Treatment. Guilford Press, 1995.
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